Venezuelanas viram prostitutas no Brasil para comprar comida

Ashley (E) é enfermeira e pede para não ser identificada: “não queremos que nossos pais saibam que fazemos isso aqui”. Foto: K. Andrade/DW

Os cachos recém-lavados, o perfume, a pele morena fresca de banho. O corpo e os gestos querem ser convidativos, mas os olhos claros de Amanda faíscam atentos e ressabiados na noite de Boa Vista. É que a imagem da colega de trabalho, atropelada por um cliente ali mesmo naquela esquina, não sai da sua cabeça: o rosto desfigurado, a boca cuspindo sangue. “Tenho pavor de trabalhar aqui”, conta Amanda, de 35 anos – uma das centenas de venezuelanas que buscam sobreviver como prostitutas em Roraima.

O medo e a vergonha da nova ocupação são comuns entre essas mulheres. Muitas delas têm ensino superior, tinham outras profissões e trabalham nas ruas para conseguir comprar comida, seja para enviar aos parentes que ficaram na Venezuela, seja para sustentar a família no Brasil.

O governo de Roraima estima que 30 mil venezuelanos tenham cruzado a fronteira e se estabelecido no estado desde 2015, fugindo da crise política e econômica na Venezuela. De acordo com o coordenador do Gabinete Integrado de Gestão Migratória de Roraima, Edvaldo Amaral, a prostituição aumentou no estado. “A gente estima que haja de 20 a 30 pontos de prostituição de venezuelanas em Roraima”, diz.

Amanda chegou a Boa Vista há um ano, com seus três filhos, após perder o emprego como chefe de cozinha na Isla Margarita. O restaurante onde trabalhava há sete anos fechou as portas com a inflação e o desabastecimento do país. No Brasil, Amanda pediu refúgio, conseguiu a carteira de trabalho e saiu em busca de emprego.

Empregos e bicos

Primeiro lhe ofereceram um trabalho de doméstica, para dormir no local e ganhar menos de um salário mínimo. Ela recusou. “Não vou ganhar menos do que está na lei só por ser venezuelana”. Em outra ocasião, foi chamada para ser chef de um restaurante. Receberia R$ 500 por mês, enquanto seus ajudantes ganhariam quatro vezes mais.

“Era muito injusto, eu recusei”, explica ela, abatida. Pouco tempo depois, Amanda decidiu ir para as ruas. “O desespero me levou a isso. Como querem que a gente não faça coisas más, se não nos dão uma chance?”, questiona ela, mostrando que não se sente confortável com a ocupação. “Queria que os brasileiros não sentissem tanto desprezo por nós. Também somos seres humanos”, afirma.

Por medo e por não suportar o trabalho de prostituta, a venezuelana frequenta as ruas somente dois ou três dias por semana, sempre antes das 21h. “Aqui há mais de 300 venezuelanas, muitas menores de idade. E é muito perigoso. Sei de mulheres que foram esfaqueadas e espancadas. Além da minha colega, que foi atropelada de propósito por um cliente”, lembra.

Com o trabalho, Amanda garante cerca de R$ 1,5 mil por mês, a ainda faz bicos de lavadeira. Um dos filhos, de 15 anos, corta grama para ajudar em casa, já que a irmã, de 16, chegou grávida ao Brasil. “Estamos sobrevivendo”, conta ela, sempre olhando ao redor, atenta aos movimentos da rua.

Fugindo da fome

Amanda tem um jeito experiente, mas trabalha nas esquinas do bairro do Caimbé há apenas três meses. O ânimo contrasta com o de meninas recém-chegadas e mais jovens, que brincam na calçada como se estivessem em uma excursão de colégio. Uma faz uma pose sensual afetada, as outras caem na gargalhada. 

É, na verdade, um esforço tremendo para espantar o medo. “Estamos expostas a muitas coisas aqui”, admite uma das quatro meninas do grupo. Nunca tinham trabalhado como prostituta, e esse era seu primeiro dia. Todas têm filhos e outras profissões na Venezuela. Estavam de “férias” e ficariam no Brasil apenas 15 dias.

Nesse período, pretendem comprar alimentos e levar para casa. “Lá não há mais comida. É pura morte. Com os nossos salários, conseguimos comer só uma vez por dia”, conta Ashley, de 23 anos, que é enfermeira em Caracas.

A amiga Paola, de 23, confirma. “Sou vendedora de sapatos. Meu salario dá para meio quilo de queijo e meio de presunto, só. O programa aqui custa R$ 100  ou entre R$ 250 e R$ 300 para passar toda a noite. Isso é um dinheirão na Venezuela!”, diz. Entre as mulheres, havia também duas professoras, que conseguiram clientes poucos minutos depois de chegarem à rua.

Vestida com um short rendado, um top e sandália de tiras de couro, Ashley ainda tem jeito de menina. Ela se vira de costas para a foto: “não queremos que os nossos pais saibam que fazemos isso aqui”.

 

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