Turismo: Chegada direta de estrangeiros a Brasília é cada vez menor

Vista aérea do Aeroporto Internacional de Brasília – Juscelino Kubitschek.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

É cada vez menor o número de turistas estrangeiros que veem a Brasília por voos internacionais que chegam ao Aeroporto Internacional Juscelino Kubitscheck. Se continuar assim, o adjetivo Internacional passará a ser apenas simbólico. Asmelhores temporadasforam 2014 – 100.063 passageiros -, ano em que a cidade foi uma das sedes da Copa do Mundo, e 2015, quando o terminal viu chegarem 107.208 estrangeiros à Capital Federal.

Desde então, a cada ano, o movimento vem caindo sucessivamente. No ano passado, com o registro de 76.747passageiros, quando comparados a 2014 e 2015, foi menor em 23,3% e 28,4%,respectivamente.Para se ter uma ideia,  o volume de estrangeiros que entram pela porta de Brasília é equivalente ao de bolivianos e paraguaios – sem considerar outras nacionalidades – que entram em Mato Grosso.

Além de apresentar sucessivas quedas no total de estrangeiros que decidem pegar voos diretos para Brasília, os dados da Embratur demonstram que houve também uma mudança drástica das nacionalidades dos viajantes. Em 2014 e 2015, norteamericanos e europeus representavam os grandes contingentes. Já em 2017 os argentinos foram os campeões.

Em 2016 e 2017, de cada dez estrangeiros que aportavam no Aeroporto JK, cinco eram argentinos. Nem no ano da Copa,los hermanos voaram tanto ao Planalto Central. Naquele ano, apenas um em cada dez que aqui chegavam por via área eram provenientes da Argentina. Isso revela um nicho que deveria ser otimizado. Voos interligando a cidade a países sul-americanos deveriam ser criados.

Voos internacionais são reduzidos

Os reflexos dessa queda no movimento de passageiros estrangeiros é fruto de diversas causas. Talvez, a principal seja a redução de voos internacionais operando a partir do terminal JK. Atualmente, são apenas 25 voos semanais, operados por quatro empresas para cinco destinos e com capacidade de transportar semanalmente cinco mil passageiros. Muito pouco. 

Quando a chilena Lan adquiriu a brasileira Tam, uma das primeiras consequências foi o fechamento de rotas que partiam de Brasília e o engavetamento, por parte da Lan de abrir novas rotas ligando Santiago a Brasília. A conexão em São Paulo passou a ser necessária.

Empresas, como a uruguaia Pluna faliram. Outras, como a Avianca e Taca, que conectavam a Capital Federal direto a Lima e Bogotá, pararam de operar essas rotas. Mais grave foi o consórcio Air France/KLM, que preferiu fechar as portas na Capital e fazer em Fortaleza o seu hub (base para conexões) sul-americano. Os cearenses ofereceram isenção de recolhimento do ISS e ganharam um portão internacional de entrada conectando o Nordeste a Paris e a Amsterdam.

O caso da Air France revela bem a falta de visão estratégica do Governo do Distrito Federal no Turismo. Os rumores da saída da companhia aérea de Brasília eram audíveis em qualquer lugar, bem como as tratativas com o governo cearense. O GDF, contudo, não achou que fosse oportuno investir em ter na cidade o hub sul-americano da Air France/KLM, conectando os viajantes daqui para toda a América do Sul e demais estados brasileiros. Com o hub, o Ceará passa a ganhar outras rotas, como para a Argentina.

 

Falta de estratégia

Em 2017, a França recebeu 89 milhões de estrangeiros; a Espanha, 82 milhões; e os EUA, 76,5 milhões. Já o Brasil, teve a sua melhor marca: 6,6 milhões. O turismo é peça fundamental da economia da atualidade. Falta e sempre faltou aos governantes de Brasília ação permanente de promoção da cidade e também a adoção de estratégias para atrair visitantes.

Brasília possui, por exemplo, voo direto para a cidade do Panamá, e dali conexão para todas as nações centroamericanas e caribenhas. Pois bem: do Panamá a média anual de nacionais que visitam o Planalto Central é de 451 pessoas. De toda a América Central e do Caribe aportaram por essas bandas, no ano passado, 2.787 passageiros, sendo que quase a metade era de cubanos, provavelmente, participes do programa Mais Médico. E agora, nem eles. Por que não divulgar a cidade patrimônio mundial da Unesco no Panamá e na América Central. Criar pacotes atrativos?

Além de não atrair turistas para Brasília, o GDF perde oportunidades importantes de fazer a economia local girar. Uma delas é a realização, no próximo ano, da Copa América. O Mané Garrincha, estádio mais caro do País, não vai ver a bola rolar. A expectativa era de que o evento injetasse na combalida economia candangade R$ 50 aR$ 100 milhões.

Mas, no jargão futebolístico, GDF não preparou o ataque e deixou a defesa desprotegida. Resultado: tomou mais um drible desconcertante da CBF e Brasília não foi escalada sede de nenhum dos jogos da Copa América-2019. Trata-se de um evento pontual, mas além de dar utilidade ao Mané Garrincha, contribuiria para fortalecer internacionalmente o nome de Brasília. Não só os torcedores, mas a imprensa mundial acompanhará o evento.

 

Todos perdem

O prejuízo não é apenas para a multinacional Inframérica que administra o Aeroporto de Brasília. Com menos voos e passageiros, toda a cidade – que ostenta um desemprego recorde – sofre: taxistas, hotéis, restaurantes, comércio, vida noturna, empresas de turismo, empresas que dão suporte ao aeroporto.

A estimativa é que cada estrangeiro gaste, por dia, cerca de R$ 600. A queda no volume de passageiros estrangeiros que por aqui chegam representa um prejuízo diário de 200 mil reais na economia local para cada dia que esses turistas fossem ficar por essas bandas.

As perspectivas em curto prazo de novas rotas não são grandes. Segundo a Embratur, ainda neste ano a Gol passa a operar a linha para Orlando, nos EUA. E, em março do ano que vem, voltará a ligar as duas principais capitais do Mercosul: Brasília e Buenos Aires. A título de comparação, Fortaleza no mesmo período ganhará mais seis rotas com quinze frequências semanais.

É necessária a descentralização dos portões internacionais do Brasil. O monopólio Rio-São Paulo precisa ser revisto. A descentralização não é apenas uma questão de conforto para quem viaja. É uma forma de descentralizar o desenvolvimento sustentável que o turismo propicia.

Não só o GDF, mas o Congresso Nacional precisa ficar atento a isso.

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