Tragédia silenciosa

Temos três fontes oficiais de registros de óbitos por covid-19 no Distrito Federal: os boletins epidemiológicos diários da Secretaria de Estado de Saúde (SES-DF), o sistema de registro de óbitos da Sala de Situação da Saúde e o Portal da Transparência de Registro Civil, que espelha os registros cartoriais. Há discrepâncias entre os números de um e outro. Mas uma coisa fica clara em todos eles: o que mais está matando as pessoas em Brasília não é a criminalidade nem o trânsito. É o novo coronavírus.

Até agora, temos nos preocupado com os números da expansão da contaminação. Mas, de acordo com os registros civis, a covid-19 teria sido responsável por 18% dos óbitos no DF desde março. A Sala de Situação da Saúde aponta um percentual de 14%. Mesmo sendo índices perturbadoramente altos, não parecem estar surtindo tanto impacto nas medidas de combate à doença. Nem nas que dependem do governo nem na adesão popular às medidas de isolamento social, higienização e uso de máscaras. São mortes que, para a maioria, ainda são distantes, murmúrios do noticiário.

Nos registros da Companhia de Planejamento do DF, a Codeplan, vemos que, a despeito de dizerem que chegamos a um “platô”, os números da disseminação da contaminação continuam subindo. Houve um salto de 6 mil para 10 mil casos novos entre a segunda e a terceira semanas de junho. Nas semanas subsequentes, de 10 mil fomos para 12,9 mil. E fechamos a semana de 5 a 12 de julho com 14.952 novos casos. Ou seja, não é um platô estacionário. A proporção de casos é cada vez maior.

Com as medidas de retomada plena da atividade econômica, a tendência é essa proporção se tornar ainda maior, o que tem impacto na capacidade de resposta dos serviços de saúde, já no limite. Nem temos capacidade para abertura de leitos de UTI devidamente equipados para assistência a um número cada vez maior de pacientes, nem profissionais capacitados em quantidade adequada para prestar essa assistência, o que fica ainda mais difícil diante do quadro de equipamentos e medicamentos insuficientes. O resultado disso é que a curva dos óbitos pode se tornar mais dramática do que a curva da contaminação.

Diante de um quadro de tantas incertezas sobre a evolução da doença; uma eventual segunda onda; um tratamento eficaz para evitar as mortes; e sobre a descoberta e produção em escala de uma vacina, a população oscila entre a agonia, o desespero e a esperança. Por vezes, uma esperança desesperada, do tipo que se agarra a qualquer receita de internet ou fakenews falando de tratamento milagroso, que não existe no mundo real.

Precisamos, sim, manter a esperança, mas com os pés no chão. Não vamos simplesmente retomar a vida como se nada estivesse acontecendo – porque com muita gente estão ocorrendo perdas gigantescas e profundamente dolorosas. O governo, se perceber o avanço do número de casos, terá de recuar, reavaliar rapidamente e tomar medidas mais rígidas de controle. E cada um de nós tem também a obrigação de manter em perspectiva não só o cuidado pessoal, mas também com aqueles que nos cercam, especialmente aqueles que sabemos necessitarem de maiores cuidados. Vamos manter a esperança e o compromisso com a vida.

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