Papai Noel nunca trouxe o meu velocípede!

Não adianta dizer que tudo não passa de convencionalismo de calendário, mas o mês de dezembro sempre traz a reboque o trenó do Papai Noel, com as oito renas correndo a galope na direção das chaminés das casas de crianças bem-comportadas, muito embora no Brasil as casas não tenham chaminés.

Porém, em se tratando de um santo travestido na figura de São Nicolau (que de fato existiu), o velhinho sempre dá um jeito de chegar de mansinho, sem chamar a atenção das crianças.

No caso de minha geração, a gente sonhava antecipadamente com o presente.escolhido, sem se dar conta se os nossos pais terrenos dispunham ou não de grana para comprá-los, a exemplo de meu pai, embora médico de profissão. Isto porque não cobrava as consultas de sua clientela, geralmente pessoas pobres.

No caso dos pedidos natalinos de então, eu não esquecia de mencionar em minhas cartas que desejava ganhar um velocípede, igualzinho ao de meu vizinho que tinha papai rico.

Mas Papai Noel nunca trouxe o meu velocípede, para constrangimento duplo, meu e de meu pai de verdade, que se limitava a me presentear com a habilidade de suas mãos de cirurgião: um papagaio colorido ou um caminhãozinho de madeira.

Porém, de repente, aos 10 anos de idade, deixei de receber até mesmo o que considerava presentinhos, isto simplesmente porque o meu Papai Noel morreu, aos 61 anos, tuberculoso, contagiado pelo vírus da doença, porque cuidava de minha mãe, Margarida, que mal conheci na minha primeira infância.

Hoje, aos 92 anos de idade cronológica, embora já saiba que a figura do bom velhinho foi inspirada num bispo chamado Nicolau, nascido na Turquia em 280 d.C, homem de bom coração, que costumava ajudar pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas e que depois de morto foi eleito pelo Vaticano como o bem-aventurado São Nicolau.

E mais: que o aparecimento de Papai Noel na época do Natal aconteceu inicialmente na Alemanha e se espalhou pelo mundo em pouco tempo. Nos Estados Unidos ganhou o nome de Santa Claus; no Brasil, de Papai Noel, e em Portugal de Papai Natal.

Com todo esse acréscimo cultural, mesmo agravado pela frustração de nunca ter recebido o sonhado velocípede, continuarei comemorando este Natal em homenagem à imagem do homem pobre de grana, mas rico de amor: Papai Noel, meu Pai!

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