O medo de morrer, mata

Caio Simões Souza, médico graduado pela UnB, Mestrado em Cardiologia pela USP – Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Um estudo publicado no JACC, importante jornal de cardiologia dos Estados Unidos, mostrou uma redução de 38% na realização de cateterismos cardíacos nos casos de infarto agudo do miocárdio com supra de ST (o tipo mais grave de infarto).

Uma possível explicação é que, embora os infartos continuem ocorrendo, os pacientes estão evitando ir ao hospital ante o surgimento de sintomas como dor no peito e falta de ar, para os quais a recomendação é de buscar o pronto socorro o mais rápido possível.

A falta de socorro imediato aumenta a chance de sérias complicações, tornando a situação ainda mais grave. Alguns pacientes foram a óbito em casa, sem buscar assistência.

Esse assunto tem sido motivo de debate nas sociedades Europeia e Americana de cardiologia e precisa ser discutido em todo o mundo, especialmente no Brasil.

No dia a dia nos hospitais de Brasília temos observado o mesmo fenômeno constatado pela publicação especializada americana. Vários pacientes, por medo da covid-19, não têm buscado os hospitais, ou o têm feito tardiamente, com sintomas de infarto e outras condições graves. Isso pode piorar de modo considerável o resultado do tratamento.

Na condição de médico cardiologista, recomendo e oriento a todos que evitem aglomerações, evitem ir aos pronto socorros por questões desnecessárias ou situações eletivas.

No entanto, reforço que os pacientes que apresentem sintomas cardiovasculares como dor no peito ou falta de ar, além de casos que inspirem cuidados de emergência (arritmias, acidente vascular cerebral, sepse, entre outros), devem procurar o pronto socorro o mais breve possível.

Temos recebido casos de pessoas dando entrada no pronto socorro com infarto bem evoluído, chegando muito tarde, por medo do coronavírus. Precisamos buscar um ponto de equilíbrio. Do contrário, muita gente vai ficar doente ou morrer por outros motivos.

Não podemos permitir que o medo de morrer de covid-19 nos leve a outras formas evitáveis de morte.

(*) Médico graduado pela UnB, Mestrado em Cardiologia pela USP – Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia

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