O HOMEM PENSA

Capa do livro de Muniz Sodré, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Em seu novo livro, Muniz Sodré – professor da UFRJ e
autor de expressivo número de obras de reflexão – indica já no
verbo do título, Pensar nagô, o que nas páginas seguintes serão
as sementes da conclusão: o mais adequado e frutífero quando de
algum modo e medida lidamos com o ser humano, na dimensão
pessoal e mais ainda na coletiva, consiste em nos esforçarmos por
descobrir o que ele pensa, e por quê. Sem permitir que
preconceitos nos desviem do foco, nos impeçam, por exemplo, de
perceber, como o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-
1951), “que o mundo é a totalidade dos fatos e não das coisas”.
Realmente, não é tão difícil perceber que a compreensão de
visões menos rígidas, mais abertas, próximas da existência, como
a do filósofo austríaco, ainda se acham longe de universalizar-se.
E não só pelo fato de que, no decorrer dos séculos, integrantes de
muitos grupos humanos tenham forçosamente descido à condição
de subordinados, reduzidos ao silêncio, não aceitos como seres
capazes de pensar o universo na sua extraordinária largueza e em
particular no tocante às construções simbólicas.

Mas quem são esses nagôs tratados no livro de Muniz
Sodré? Nagô identifica um grupo racial africano – ou uma nação,
como ainda se costuma dizer, com certa frequência, de
aglomerados semelhantes. Grupo que se espalhou pelos territórios
de vários países da África Ocidental, particularmente a Nigéria e
o Benin. E que após os Descobrimentos – à semelhança do que
ocorreu com vários outros ramos raciais –, teve muitos dos seus
integrantes escravizados, trazidos para o lado de cá, forçados à
rudeza de tarefas agrícolas, particularmente em território baiano.
Apesar da dura submissão aos senhores da nova terra, os
nagôs acabariam distinguidos pela amplitude de seus
conhecimentos, complexidade de suas criações culturais,
incluídas aí as que motivam as manifestações religiosas.
Percebeu-se que nas suas formas de dirigir-se aos deuses também
havia espaço para a manifestação artística e, mais importante,
para a conscientização da grandeza e complexidade do mundo,
dos mundos, portanto do Universo. Dadas tais qualidades,
passaram os nagôs a interessar pelo menos a parte mais atenta da
intelectualidade contemporânea, o que resultou na abertura de
caminhos para o processo de reavaliação e pleno reconhecimento
de suas possibilidades humanas.
Mas o estudo de Muniz Sodré vai além do episódio baiano,
cuja importância cada vez mais se torna visível. Insatisfeito com o
que resulta do conhecimento das relações entre nagôs e

brasileiros, amplia os horizontes da pesquisa. Leva o leitor a
conhecer as raízes do caso: a secular submissão das comunidades
nagô aos interesses de vários impérios colonialistas europeus.
Multiplos são os efeitos negativos da supremacia desse
poder estranho e duramente interesseiro. Domínio e exploração
completam-se com atentados culturais, como a negação da
qualidade intelectual do oprimido. Para fortalecer o domínio,
muitos pensadores coniventes com a supremacia colonial
tentaram convencer os leitores que a inteligência dos africanos –
dos nagô em particular – seria inferior à dos europeus.
De fato, impressionante quanto os horrores do colonialismo
é o número de celebrados pensadores europeus que, desde o início
da venda de escravos africanos aos fazendeiros das Américas,
usaram seus instrumentais filosóficos para convencer as gerações
de que os povos do chamado continente negro eram tão
precariamente humanos, que sobre eles seria adequado dizer que
não tinham alma e, portanto, não podiam pensar.
Eram bichos: e como tal nada impedia que fossem
explorados, torturados, eliminados. Em tempos recentes, porém,
intelectuais de espírito aberto assumiram a tarefa de iluminar,
criar novas premissas para o conhecimento filosófico; de pensar
questões tão elevadas quanto a capacidade humana de intervir no
próprio destino.

O livro de Muniz mostra ao leitor brasileiro – e este é um
dos seus méritos – a dupla face de boa parte da intelectualidade
internacional diante do problema. Primeiro, o que em favor da
complexidade cultural já foi alcançado com as obras de vários
inovadores da filosofia europeia na segunda metade do século
XIX e primeiros decênios do século atual. E, como nada é
perfeito, chama a atenção, igualmente, para as reações de muitos
pensadores, também europeus na maioria, que nesse mesmo
período se obstinaram em negar a capacidade dos nagô de
conceber o universo com um grau surpreendente de realidade.
Vale a pena apreciar o confronto.

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