Machismo no rap e hip hop

 

Bruno Santa Rita

Apoio de Victor Fuzeira

 

Mulheres que cantam rap e hip hop passaram a ser vítimas de machismo e versos agressivos nas chamadas batalhas mistas de rap no Distrito Federal. Em eventos assim,  duas pessoas (um homem e uma mulher) se confrontam com rimas com o objetivo de derrotar o oponente. As participantes reclamam das práticas. A MC Estéfane Câmara, 21 anos, conhecida como Marciana e membro do grupo Batalha das Gurias, conta que em sua primeira batalha mista teve de assumir uma posição mais defensiva para se esquivar de agressões machistas.

“Uma vez ou outra eu escutava que era melhor eu estar lavando louça ou cuidando de casa”, afirmou a rapper. De acordo com ela, a reação do público nessas batalhas é um reflexo da sociedade, tendo uma grande aceitação de piadas machistas, porém esse comportamento varia de batalhas em batalhas, inclusive ocorrendo vaias contra rimas misóginas. Estéfane afirma que as mulheres são apagadas e ignoradas na cena do rap e que elas estão tentando ocupar o seu espaço com material de qualidade. “Mulher também faz rap e não é de hoje, já faz anos e não sei por que as pessoas não nos valorizam”, reclama a rapper.

Vera Veronika, primeira rapper de brasília
Vera Veronika, primeira rapper de Brasília

Pioneirismo

A primeira mulher a fazer rap no DF, Vera Veronika, de 38 anos, participa da cena musical do rap há 25 anos e afirma que ainda existem muitas canções com letras machistas que tratam a mulher de forma reduzida e preconceituosa, mas que a produção de música de qualidade por parte das mulheres está melhorando a situação. Para lutar pela sua causa, Vera aderiu à Frente Nacional das Mulheres do Hip Hop que estará se reunindo dos dias neste final de semana, no Estado de São Paulo.

O movimento defende a posição da mulher no hip hop e luta por igualdade e respeito. “Esse é o tipo de coisa que as mulheres do rap tentam combater”, afirma a pioneira. Vera também faz a observação de que o rap também é música e que aborda temáticas ativistas e de reflexão.

Segundo ela, as pessoas começam a perceber melhor essa condição com a ascensão de artistas como Karol konká. A rapper também cita a música “Eu tava lá” lançada pela artista Lívia Cruz em resposta à música “Quem tava lá”, do grupo Costa Gold, que teria conteúdo ofensivo às mulheres e que excluiria elas do momento de iniciação do rap no Brasil como um exemplo da luta da mulher no hip hop. “A música da Lívia é um desabafo”, diz Vera.

O rapper Afroragga, do grupo Movni, participa das batalhas de rima e de improviso há 12 anos. Ele diz que as mulheres são essenciais na cultura de rua e essa ideia de um rap misógino é fruto de uma divisão do gênero musical. “Tem os rappers que falam de carro e mulheres e tem os rappers que são pessoas maduras, que respeitam as mulheres, que se respeitam como ser humano, independentemente do gênero”.

Afroragga ressalta que o princípio fundamental da cultura Hip Hop é sua luta pela liberdade, por igualdade social, é uma luta contra qualquer tipo de segregação e que as batalhas de rima são uma maneira de vencer o outro sem usar a violência. “É uma batalha resolvida na poesia, nas ideias”, afirma o rapper.

O professor de musicologia da UFMG, Carlos Palombini, explica que as letras machistas e de caráter heteronormativo sempre existiram na música brasileira e em outros gêneros como no blues afro-norte-americano. Palombini afirma que se pode observar nitidamente a presença de letras que objetificam a mulher no gênero samba, como, por exemplo, em Noel Rosa, na letra da canção “Mulher Indigesta”.

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