Gabinete do ódio ajudou a derrubar Mandetta

As manifestações digitais induziam a que o agora ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pedisse demissão do cargo. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Ficou entre os assuntos mais falados do Twitter no Brasil, na tarde de segunda-feira (13), a hashtag #PedePraSairMandetta. As manifestações digitais induziam a que o agora ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pedisse demissão do cargo.

Era muito estranho cogitar tamanho apelo popular em meio ao trabalho reconhecidamente bem executado pelo ex-titular da Pasta. Tanto, que foram registrados panelaços em todas as capitais do Brasil quando sua demissão de Mandeta foi anunciada, quinta-feira (16), pelo Presidente da República.

No dia 6 de abril, a Folha de S. Paulo divulgou pesquisa sobre os trabalhos diante da pandemia do coronavírus. Os dados apontaram que 82% das pessoas que declaradamente votaram em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018 classificavam como ótimo ou bom o trabalho do Ministério da Saúde sob o médico e ex-deputado federal Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS).

Gabinete do Ódio – Então, quem seriam as pessoas que pediam de forma tão organizada a renúncia de Mandetta? Os perfis que usaram a tal hashtag no Twitter são facilmente identificados como fakes. Costumam reproduzir (retuitar), em sequência, muitos posts que outras contas, normalmente de aliados do Presidente, publicam e pouco expõem sua vida pessoal, o que seria o real intuito da rede social. Outro indicativo é a recente data de criação dos perfis (veja a reprodução das imagens).

O “Gabinete do Ódio” – expressão utilizada para nominar assessores que trabalham diretamente com o Presidente e são responsáveis por disseminar na rede mundial de computadores notícias falsas contra adversários e o que é considerado, por eles, positivo para Bolsonaro – foi acionado para pressionar Mandetta a sair do cargo. A mesma estratégia já derrubou outros ministros, como o general Santos Cruz, ex-titular da Secretaria de Governo.

Fantástico – Desde o começo da crise do coronavírus, o ministro da Saúde confrontou o Presidente. Baseado em dados científicos, Mandetta defendia medidas de precaução, como o isolamento social e a volta gradual e controlada da retomada da rotina nas cidades brasileiras. Bolsonaro, contrariando as recomendações de todas as autoridades sanitárias e de saúde do mundo, defende a volta à normalidade.

Na segunda-feira (13), o perfil identificado como Priscila Nunes, retuitou 20 publicações com a #PedePraSairMandetta.
Até as 12h de sexta-feira (17), após consumada a demissão e alfinetadas públicas de Bolsonaro no presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o mesmo perfil compartilhou 10 vezes a nova ação do Gabinete do Ódio, com a #ForaMaia.

No domingo (12), Mandetta concedeu entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, um dos veículos de comunicação mais atacados pelo atual titular do Palácio do Planalto. O agora ex-ministro pediu unificação no discurso e voltou a defender o isolamento como forma de evitar mais mortes no Brasil. E criticou, sem citar nomes, diversas atitudes de Bolsonaro. No dia seguinte, à saída do Alvorada, o Presidente não comentou a entrevista, alegando que “não assiste a Globo”.

Luís Miranda dá tiro no pé

Na sexta-feira (17), dia seguinte à demissão de Mandetta, deputados bolsonaristas beneficiados pela estrutura digital que alavanca polêmicas provocadas pelo Presidente começaram uma campanha para desmoralizar o ex-ministro.

Hildo Rocha (MDB-MA) levantou suspeita sobre um suposto desvio de recursos do Ministério da Saúde. Segundo o parlamentar, os valores chegariam a R$ 43 milhões para beneficiar um prefeito do DEM. A deputada Carla Zambelli (sem partido) foi ao Planalto momentos antes da demissão portando um dossiê contra Mandetta.

Com isso, o deputado Luís Miranda (DEM-DF), correligionário de Mandetta, pode ter mirado em Bolsonaro e acertado em seu próprio partido. Ele protocolou pedido de abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Coronavírus.

Teich tem padrinhos poderosos

O responsável pela indicação do novo titular da Saúde, Nelson Teich, foi o dono da construtora Tecnisa, Meyer Nigri. O nome de Teich foi respaldado pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pelo senador e filho do presidente, Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

O médico, que é especialista em oncologia e empresário do ramo da saúde, também teve influência nas nomeações de Ricardo Salles (ministro do Meio Ambiente) e de seu amigo de infância, Fábio Wajngarten (secretário Especial de Comunicação da Presidência da República).

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