Desigualdade obscena

Na última semana, duas informações tiveram grande destaque na mídia. Uma foi a divulgação pela revista Forbes da lista de bilionários brasileiros em 2020. Os que possuem patrimônio superior a R$ 1 bilhão são agora 238, contra 205 em 2019. A fortuna dos ricaços somou R$ 1,6 trilhão. Superior, por exemplo, ao PIB de 51 dos 55 países africanos. Abaixo apenas dos PIBs da África do Sul, Nigéria, Egito e Argélia. O mais impressionante é que, enquanto o PIB do Brasil deve contrair de 7% a 10% neste ano, o patrimônio conjunto dos super ricos aumentou nada menos que 33%. 

A outra informação foi a divulgada pelo IBGE, revelando que o número de pessoas passando fome no Brasil cresceu para 10 milhões em 2018, contingente que vem aumentando desde 2014, e que certamente cresceu com o agravamento da crise econômica, o aumento do desemprego e a pandemia. É provável que o número de miseráveis passando fome no Brasil seja hoje superior a 15 milhões. 

O que significam estas duas informações? Significa o que a direita, a elite empresarial, os economistas liberais e a grande mídia se recusam a reconhecer: que uma é consequência direta da outra. Que tal contraste não é obra do acaso, mas o resultado de políticas governamentais, de um lado, retirando direitos dos trabalhadores e drenando os gastos sociais, e, de outro, aprovando políticas que favorecem a concentração da renda e da riqueza. 

Por exemplo, o sistema tributário, fortemente regressivo, no qual os muito ricos pagam, proporcionalmente, menos tributos que os trabalhadores e a classe média. E não satisfeitos, a maioria dos empresários recorre à elisão e sonegação fiscal para ampliar seus ganhos, além, é claro, da super exploração do trabalho. 

O Véio da Havan, por exemplo, acumula fortuna de R$ 18,7 bilhões, mas paga pouco mais que o miserável salário minimo de R$ 1.045 a seus milhares de funcionários. Neste cenário desolador, que não é exclusividade brasileira, o mundo chegará neste domingo (27) ao triste número de 1 milhão de mortos pela covid-19, num total de 33 milhões de contaminados, enquanto o Brasil chega a 4,5 milhões de infectados e 140 mil mortos. 

Como diz o ditado popular: desgraça pouca é bobagem! 

(*) Doutor em Desenvolvimento Sustentável e ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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