Caixa de Pandora e atual crise do GDF têm personagens diferentes com atuações parecidas

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Foto: Gustavo Goes

Menos de sete anos após a eclosão do maior escândalo político de sua história, Brasília vive outro momento delicado em relação ao Poder Executivo local. A exemplo do que ocorreu com José Roberto Arruda em 2009, o governador Rodrigo Rollemberg está às voltas com a divulgação de conversas pouco republicanas gravadas clandestinamente.

 A diferença é que, até o momento, não apareceu nenhuma fita com a participação direta do governador. Mas os diálogos entre o vice, Renato Santana, e a presidente do SindSaúde, Marli Rodrigues, têm conteúdo comprometedor e envolvem a primeira-dama, Márcia Rollemberg.

Armação

O Palácio do Buriti não tem mais dúvidas de que as denúncias de supostos desvios e cobrança de propinas na Secretaria de Saúde são uma “armação” para derrubar Rodrigo Rollemberg. O gabinete do governador trabalha com duas hipóteses: a estratégia teria sido montada pelo vice, Renato Santana (PSD), para tomar o lugar do número 1, ou seria uma montagem da presidente da Câmara Legislativa, Celina Leão (PPS).

Neste caso, Celina estaria agindo para afastar o governador e o vice, e tomar-lhes o lugar, como segunda na linha sucessória. Depois ela precisaria aprovar, em segundo turno, a emenda à Lei Orgânica que lhe asseguraria o direito de se reeleger para o comando da Casa. E em 2018 concorreria à reeleição para o GDF.

Há duas semanas, Celina interrompeu o recesso parlamentar para dar andamento à CPI da Saúde. Ela aproveitou o vazamento de áudios de conversas entre Santana e a presidente do SindSaúde atacando Rollemberg para turbinar o desgaste do governador. Nos últimos dias, outras gravações tornaram-se públicas, acentuando o racha entre o Executivo e a Câmara Legislativa.

Na quinta-feira (28), a parlamentar divulgou nota reiterando “incondicional apoio às investigações da CPI” e repudiando a exoneração de servidores citados nas conversas. “Neste momento delicado, vem o GDF com mais um ato de covardia ao exonerar o delegado de polícia Rafael de Sá Sampaio, que, juntamente com uma equipe de delegados, ofereceu, voluntariamente, ajuda nas investigações”, diz o texto.

Assessores próximos de Rollemberg avaliam, porém, que os áudios trazem “muita espuma e poucos fatos”. No entanto, admitem que as relações entre o governador e o vice estão desgastadas, principalmente após o envolvimento do nome da primeira-dama. “Se o Santana imaginava que Rollemberg não confiava nem meio por cento nele, agora pode ter certeza de que a desconfiança é de 100%”, diz um aliado.

Os governistas entendem que, a exemplo de Arruda, Rollemberg tem contrariado grandes interesses. Citam a redução do número de Secretarias e de Administrações Regionais, cortando cargos e verbas de redutos comandados por deputados; a revisão de contratos de prestação de serviço ao GDF – muitos deles controlados por empresas de famílias de distritais –; e a regularização de invasões de terras públicas. Esta última medida colide frontalmente com os grileiros.

Ajuda da Federal

Celina Leão vê a teoria da conspiração contra Rollemberg como uma infantilidade do governador. Para a presidente da Câmara, ele não trata as denúncias com a seriedade que elas merecem. E, em vez de investigar, tenta desqualificar os indícios trazidos a público pelas gravações.

Diante do que chama de “inoperância do governo”, a parlamentar garante que a Câmara cumprirá seu papel de ir a fundo nas apurações. “Como o governador resolveu retaliar contra a Polícia Civil, que ele controla, pediremos apoio da Polícia Federal, inclusive para garantir a segurança das pessoas que fazem as denúncias”, diz ela.

Enquanto isso, corre nos bastidores do Buriti uma brincadeira de “cara-crachá” à qual o Brasília Capital teve acesso. No joguinho, Rollemberg equivale a Arruda, principal alvo das denúncias; Marli seria o delator Durval Barbosa, que saiu gravando ilegalmente todos os seus interlocutores; o deputado Rogério Rosso (PSD) teria o mesmo papel de Agnelo Queiroz (PT), que torcia pelo desgaste do governador para facilitar sua chegada ao poder na eleição seguinte; Santana corresponde ao jornalista Edson Sombra, fiel depositário e mediador entre o delator e seu alvo; e Celina reproduz o que foi o distrital Chico Vigilante (PT), que aumentava o tom dos discursos da oposição na Câmara pedindo o afastamento de Arruda.  

As semelhanças se acentuam quando se compara o modus operandi das gravações feitas por Marli. Seria mera coincidência?  

Personagens

No desenrolar dessa trama, muitos são os personagens e seus interesses. O deputado Wellington Luiz (PMDB), é Policial Civil, foi presidente do Sindpol/DF e assumiu a presidência da CPI num momento em que sua categoria profissional está em campanha salarial junto ao GDF.

O vice-presidente da CPI, Cristiano Araújo, do mesmo partido de Santana e de Rosso, é sócio em empresa que aparece nas gravações como tendo recebido mais de R$ 40 milhões do Fundo de Saúde do DF. Araújo comemorou a liberação desses recursos com Ricardo Cardoso, ex-diretor do Fundo. O distrital Robério Negreiros (PSDB), membro da CPI, é investigado por nepotismo cruzado com o deputado federal Felipe Maia (DEM-RJ).

Uma das gravações divulgadas foi feita no apartamento de Edvaldo Simplício da Silva. Ele promoveu uma reunião entre Santana e Marli. Edvaldo e Marli foram apresentados por Valdeci Marques de Medeiros, que é funcionário do SindSaúde e servidor comissionado do GDF até a semana passada. Era Ouvidor do gabinete da vice-governadoria. Edvaldo é técnico em políticas públicas e gestão governamental da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão.

A pedido da presidente da CLDF, Christian Popov, ex-gerente de Cessões, Requisições e Ressarcimento, assinou a cessão de Edvaldo para a Câmara Legislativa. Após as denúncias, Celina informou que ele foi devolvido ao GDF, mas até quinta (28) nenhum documento oficializando isso foi recebido pelo Palácio do Buriti.

Christian Popov foi exonerado da função na quarta (19). Em 25 de novembro de 2015, Popov assinou a carta convocatória endereçada ao SindSaúde para que fossem apresentadas certidões que evitariam que o sindicado perdesse acesso aos consignados, conforme decreto 28.195/2007.

Quem também foi exonerado (25/7) foi Rafael Sampaio. Ele é vice-presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia Civil e foi afastado da Assessoria Jurídico-Legislativa da Secretaria de Segurança Pública e Paz Social depois que participou da criação, sem autorização, de uma força-tarefa de delegados para auxiliar a CPI da Saúde.

Fábio Gondin, João Batista de Sousa, Marcos Júnior, Marcello Nóbrega, Caio Barbieri, Marcelo Radical, Arthur Luiz Pinho de Lima, Sady Carnot Falcão Filho, Renildon Rehem, Armando Raggio, Rafael de Sá Sampaio, Ricardo Cardoso, e outros, são alguns dos personagens dessa intrincada história, na qual seus interesses particulares parecem estar cada vez mais próximos.

No meio disso tudo, ao assumir o cargo, o atual secretário de Saúde, Humberto Fonseca, alinhado com modelos da moderna administração, reviu todos os processos de trabalho e sentenciou: “quem licita não contrata, quem contrata não paga”. Com isso, ele acredita estar dificultando a manutenção dos “acordos” pré-existentes e herdados das gestões anteriores.

 

Colaborou: Zilta Marinho

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