Brasil e DF caminham para a recessão

Se Brasília fosse um paciente ligado a aparelhos de UTI, poder-se-ia dizer que a situação é quase de estado de coma. E o médico que pode receitar os remédios e tratamentos está passeando na Europa. O governador Ibaneis Rocha tirou uma semana de férias para visitar o Vaticano.

Traduzindo o economês, os números da economia não vão bem no Brasil nem em Brasília. Um círculo vicioso encaminha o país para uma recessão. Renda baixa e desemprego alto levam a menor consumo, fechamento de estabelecimentos, mais desemprego e queda na renda do consumidor. A situação requer iniciativas públicas urgentes, tanto em nível federal quanto local.

Mas as ações nesse sentido são muito tímidas. Ao lado da falência da economia privada, ocorre o sucateamento das estruturas públicas. Enquanto os governos federal e local inventam factoides pirotécnicos para distrair o foco da opinião pública, a vida real mostra sua face cruel.
Dados da Federação do Comércio indicam que o endividamento das famílias cresceu no DF. Passou de 775.773 famílias, em fevereiro para 785.831 em março deste ano. Considerando o tamanho médio das famílias, temos 80,3% dos brasilienses no vermelho. É como se quase todo o DF tivesse recorrido ao cartão de crédito, ao cheque especial e aos boletos sem condição de honrá-los. Esse fenômeno aumenta mês a mês.

Dos endividados, apenas 39,8% dos entrevistados afirmam ter condições de pagar integralmente suas dívidas. Segundo informa o IBGE, em abril, no DF, o volume de vendas do varejo recuou 2,1% frente a março. A queda de vendas em determinados setores é alarmante: livros, jornais, revistas e papelaria (– 20,7%); hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (–7,9%)

O fenômeno da estagflação

Mesmo vendendo pouco, os preços não caem. Em abril, Brasília retomou o título de capital do custo de vida mais alto do Brasil. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 0,77%, acima do índice nacional (0,57%). Foi a maior alta mensal para um mês de abril desde 2015.
Se nada mudar, o horizonte é de uma estagflação: economia estagnada e preços subindo, com reflexos sociais imensuráveis. Nas quadras comerciais e nos shoppings, as cenas são iguais. Imóveis fechados, placas de aluga-se, passa-se o ponto, ou simplesmente trancadas.

O desemprego aberto é o maior nos últimos sete anos. O volume de desempregados e subutilizados chega a 640 mil brasilienses. A taxa de desocupação no 1º trimestre foi de 14,1%, 1,4 ponto percentual acima da apurada do índice brasileiro (12,7%) e 2,0% acima da registrada aqui no trimestre anterior (12,1%).

Cresce número de lojas fechadas

Diante da falta de capacidade de consumo, o comércio local reage com fechamento de lojas. Nos três primeiros meses do ano, 107 empreendimentos baixaram as portas. Menos consumo afeta também a indústria. Até março, a queda da atividade industrial foi de 0,6%. A construção civil caiu 1,6%. Também nas exportações ocorreu retração, especialmente na indústria de baixa tecnologia e na cultura de soja, segundo o Boletim de Conjuntura do DF, da Codeplan. E não cabe jogar a conta na “herança maldita”, que os políticos gostam de alegar. Os dados da Fecomércio indicam que “o melhor primeiro trimestre ocorreu em 2014, quando 187 novos comércios foram criados no DF”.

Reforma da previdência não resolverá

O governo diz que tudo vai ficar azul se a Reforma da Previdência for feita. É falsa essa promessa. Mesmo que aprove a reforma na versão original de Bolsonaro, o máximo que acontecerá será o congelamento da situação atual. As despesas atuais do governo vão continuar como estão em dezenas de anos. A redução do estoque de aposentados e pensionistas só deve se verificar em uma década ou mais, em decorrência do falecimento dos atuais beneficiários e com o retardo de novas aposentadoria.

Somente um verdadeiro crescimento econômico nacional e local pode alterar esse quadro. Por isso são necessárias políticas públicas que, simultaneamente, melhorem as condições de vida e gerem emprego e renda. Faltam obras de saneamento básico, de recuperação de vias e passeios públicos, reformas e ampliação das redes de ensino e de saúde, estimulo ao pequeno empreendedor.

Fundo Constitucional – Entretanto são tímidas as iniciativas nesse sentido. Segundo a Codeplan, falta também às empresas créditos e financiamentos. O Banco de Brasília (BRB), apesar dos lucros, tem tido pouca resolubilidade. No caixa do GDF os recursos que passam por lá não são poucos.

Segundo o portal da transparência da Controladoria Geral do DF, o contribuinte candango já pagou quase R$ 13 bilhões este ano. Uma bolada de R$ 6,135 bi já veio da União por meio do Fundo Constitucional do DF, que devem ser acrescidos em mais de R$ 1,105 bi fruto de outras transferências federais, segundo o portal da Controladoria-Geral da União.

Emendas – Somando-se apenas essas receitas – existem outras, dentre elas emendas parlamentares federais que estão dormitando na Caixa Econômica Federal por falta de projetos – são mais de R$ 20 bilhões nesse primeiro semestre nos cofres do GDF e muito pouco se viu em iniciativas que mudassem a cara da cidade.

Milagre – Seis meses já se passaram e a situação requer medidas corajosas e produtivas. A esperança é de que o governador traga as bênçãos do Santo Padre e consiga realizar em Brasília o milagre da multiplicação dos empregos antes de suas próximas férias.

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