Alegria de brasileiro dura pouco

Os leitores que me desculpem o verniz de intelectualidade, mas tenho antiga predileção pelos provérbios latinos, a exemplo do Vox populi vox Dei (a voz do povo é a voz de Deus). E, na certa, foi com essa inspiração ao ouvir a voz divina que o povão carioca criou o “Felicidade de pobre dura pouco”, já comprovado tantas vezes nas vidas de quem trabalha de dia pra comer de noite, como nosotros. E como estamos no ranking dos países mais paupérrimos, economicamente, do mundo, me dou ao luxo de trocar o pobre por brasileiro, apesar de que um é adjetivo qualificativo e o outro substantivo pátrio, porém ambos significam a mesma coisa.

Para comprovar esta realidade, eis o argumento insofismável: os milhões de trabalhadores brasileiros recebem o salário mínimo mensal de R$ 724, por sinal o mais baixo da América do Sul e que mal dá para um chefe de família alugar um quarto no Plano Piloto. Em contraste que dói no bolso e no estômago, qualquer parlamentar pé-de-chinelo embolsa R$ 25.000 para trabalhar três dias por semana, legislando em causa própria, sem incluir as mordomias, entre as quais: moradias, refeições em restaurantes chiques, gabinetes lotados de afilhados (com raras exceções), passagens de avião e outras benesses, que só eles e Deus sabem –, tudo pago pelo eleitor contribuinte, que no momento se encontra atônito para votar, sem saber em quem, diante de 32 partidos.

É o caso de perguntar, mais uma vez: “Que país é este?”, frase lapidar atribuída ao cantor e compositor carioca Renato Russo. Autoria à parte, a verdade é que, para a maioria de nós, brasileiros, a alegria e o orgulho cívico feneceram depois que o nosso único herói Ayrton Senna se acidentou fatalmente, na pista do autódromo de San Marino, em 1º de maio de 1994. Desde então, ficamos sem o nosso Anjo da Guarda nacional e recorremos ao futebol, que agora virou samba do crioulo doido: estádios vazios, pernas-de-pau ganhando fortunas, técnicos medíocres contratados por cifras milionárias. E os clubes na pindaíba, que mal podem pagar os magros salários de seus funcionários, como no meu Botafogo.

Acredito que a última alternativa para que nos seja devolvida a alegria, por tão pouco, é que o Papa Francisco esqueça que é argentino e permita que o Brasil conquiste a Copa do Mundo de Futebol pela sexta vez, em território. Pena que será no Maracanã, e não aqui no nosso Estádio Nacional Mané Garrincha!

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