A maconha estragada de Osmar Terra

Overdose: tentando reforçar o discurso contra a liberação da canabis, o ministro Osmar Terra exagerou nos números, e aumentou de 700 Kg para 8 toneladas os dados sobre o consumo de cocaína no Distrito Federal.
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB), ou anda mal informado ou sua assessoria não sabe fazer contas. Na entrevista intitulada Guerra à Maconha, nas páginas amarelas da revista Veja da semana passada, ele afirmou que em Brasília são consumidas de 8 e 10 toneladas de cocaína por ano, 40 vezes mais do que em Chicago. A informação foi reproduzida na coluna de Lauro Jardim, de O Globo.

Se ainda fosse vivo, o ex-governador Joaquim Roriz, que foi correligionário de Terra no MDB, certamente se valeria de uma expressão que lhe era típica: “fumou uma maconha estragada”. As afirmações do ministro se baseiam na dissertação de mestrado Desenvolvimento de Método para Determinação de Drogas Psicoativas e seus Metabólitos em Esgoto: Suporte aos Estudos de Epidemiologia Forense, de Gustavo Brandão Souza, defendida no Instituto de Química da UnB.

Simplificando o título acadêmico, o estudo se vale de uma técnica denominada Epidemiologia do Esgoto. Por meio da análise química dos efluentes, quantificou-se as substâncias e seus metabólitos no esgoto gerado pela população da Capital Federal. A conclusão final é que mais de 700 Kg de cocaína base livre foram consumidas no DF durante um ano. Portanto, longe dos 8 mil a 10 mil quilos, conforme afirmou o ministro. Mesmo assim, o brasiliense continua a ter um padrão alto de consumo de cocaína, superior aos moradores de Chicago, mas não 40 vezes, como disse Terra, e sim, entre 2,8 e 3,5 vezes.

Uso de água de reservatórios causa preocupação

O objetivo do trabalho acadêmico era aprimorar essa técnica de pesquisa e comprovar sua validade para uso forense. Ou seja, em investigação criminal, e a aceitação de suas conclusões como prova num tribunal. Algo como se vê nas séries CSI na televisão.

Percebe-se, novamente, que da “balburdia” acadêmica da UnB, citada pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, brotam importantes e interessantes trabalhos científicos. A pesquisa de Gustavo Souza tem uma serventia mais ampla do que o uso forense. Ela lança uma preocupante luz sobre o consumo humano e animal de água captada em reservatórios nos quais também são lançados efluentes sanitários, mesmo tratados em estações.

É o caso da captação no Paranoá, iniciada durante a seca que jogou a população do DF num racionamento. Esta coluna tratou do tema em 2017, quando o GDF inaugurou estrutura com capacidade de retirar do lago 42 mil litros por minuto. Alertávamos para o tratamento da água pela Caesb, de padrão terciário, baseado em higiênicos (remoção de bactérias, protozoários, vírus etc., redução de impurezas e de compostos orgânicos; estéticos (correção da cor, sabor e odor); e econômicos (redução de corrosividade, cor, turbidez, ferro e manganês.

Urina – O padrão terciário de tratamento d’água não é capaz de eliminar substâncias químicas como hormônios, antibióticos e drogas ilícitas. Quando uma pessoa consome cocaína – cheirando ou fumando crack – a droga é metabolizada: 45% são convertidos em benzoilecgonina (BE), excretada pela urina.Como a maior parte da urina vai para as redes de esgoto, a pesquisa acadêmica buscou identificar a presença de 19 substâncias que apontariam o consumo de drogas e o seu nível no DF. Feita a análise, apenas os canabinóides e dois metabólitos da cocaína – Ecgonina (ECG) e Ecgonina metil-éste (EME) – não foram identificados. Isso, contudo, não significa que não estivessem lá, e sim que o método utilizado na pesquisa não era capaz de localizá-los.

Regionalização do consumo

O pesquisador se valeu da rede de esgoto que atende a 90% dos brasilienses, e pode, inclusive, fazer uma análise regionalizada, já que para cada quadrante do DF há uma rede de captação que leva o esgoto a uma determinada estação de tratamento (ETE). Portanto, seus achados são úteis para a definição de uma política de saúde pública que trate, sob o aspecto epidemiológico, o uso de drogas ilícitas e suas consequências à saúde.

As amostras de esgoto foram coletadas nas ETEs do Melchior (responsável por Taguatinga, Ceilândia e Águas Claras), Gama, Brasília Norte, Brasília Sul, Samambaia, Paranoá, Planaltina e Riacho Fundo. Na ETE Brasília Norte houve coleta em sete dias consecutivos, e nas demais em dias úteis da semana e finais de semana. Constatou-se que nos dias úteis o consumo equivale à metade dos finais de semana, o que pode levar a duas leituras: ou a maior número de usuários de drogas nos finais de semana, ou o volume do consumo é maior, mesmo mantida a quantidade de usuários.

O trabalho apontou que as cidades atendidas pela ETE Brasília Norte (Asa Norte, Lago Norte, Varjão e Estrutural) são os que mais consomem: 4.453 doses por ano para cada 1.000 habitantes. O consumo semanal apresentou picos maiores aos sábados e mais baixos às terças-feiras. Em seguida, aparecem as áreas atendidas pelas ETEs de Samambaia, 4.049; Gama, 3.607; Melchior, 3.259; Paranoá, 2.208; Brasília Sul, 2.177; Riacho Fundo, 1.622; e Planaltina, 1.601 doses/ano em cada grupo de 1.000 habitantes. Em todas as amostras de esgoto, a pesquisa encontrou as cinco substâncias normalmente expelidas na urina relacionadas ao uso de cocaína.

Autoridades devem tomar providências

As conclusões da pesquisa sugerem algumas providências das autoridades públicas. Primeiro, o ministro da Cidadania precisa ser melhor informado para não propagar fake news que causam má imagem aos habitantes de Brasília. Segundo, os responsáveis pelo abastecimento d’água precisam monitorar a qualidade do produto servido aos brasilienses no tocante à presença de derivados de medicamentos e drogas ilícitas. Por fim, é necessária uma política efetiva de saúde pública que evite que a capital se torne uma cidade de viciados.

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