A banalidade do mal

O DF não teve em sua gênese raízes para violências e sim para a paz. Não teve vocação para mortes e sim para defesa de vidas dignas. Nunca desejou presença de doenças e sim de saúde plena. Direito à moradia, trabalho, renda, acesso à terra, alimentação, cultura e lazer. Políticas revestidas de cidadania. Nossa gente trabalhando, em ambiências de gestões governamentais participativas, democráticas, livre em busca dos direitos civilizatórios da humanidade.

No entanto, todos os dias somos assolados por tragédias, bombardeados por imagens que destroem a razão, e sofremos com a violência e o descaso dos desgovernos. Assistimos, de forma “natural”, as mais variadas formas de violência vindas das instituições que deveriam proteger a população. O que nos deixa perplexos é a ausência de atitudes firmes das nossas autoridades políticas, corporativas e dos outros poderes do Estado.

Os 68 casos de feminicídios de março de 2015 a 18 de março deste ano; as dezenas de mortes por dengue, crianças que morrem antes mesmo de nascer em decorrência da falta de pré-natal a suas mães… Tudo isso é encarado apenas com a frieza das estatísticas e com a omissão de ações concretas.

Não bastasse a ineficiência administrativa, temos a ineficiência moral. O decreto que autoriza contratar parentes é mais um exemplo. O governador não compreendeu que suas atitudes colocam em risco os princípios fundamentais da Administração Pública, presentes no artigo 37 da Constituição Federal de 1988: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

O povo do DF, ao longo dos anos, vem pagando muito caro por essa falta de cuidado entre a tênue relação do público e o privado promovida pelos próprios governos. Brasília, não nasceu naturalizando dores, perdas de vidas de sua gente. Ao contrário: sempre foi palco pulsante de esperanças, sonhos e de tantas conquistas nas lutas para que a cidade fosse um lugar de bem-viver em harmonia, liberdade e solidariedade entre todos que, por nascimento ou adoção, escolheram aqui ajudar a sinalizar o farol por um Brasil livre e democrático.

Por esse símbolo e pelos fatos atuais, o DF não pode prender suas vozes. É preciso agir rapidamente para assegurar seu lugar na sociedade. Lugar de educar mulheres e homens, humanamente civilizados e plenos de sua cidadania. Sem isso, nossa cidade pode servir, outra vez, de palco a atos de violência sofridos para destruir brutalmente a democracia.

É preciso estarmos atentos a qualquer face da violência, seja ela praticada pelo Estado, pela polícia, por bandidos, por políticos omissos e corruptos ou qualquer cidadão comum, quando este perde a razão e não mede as consequências de seus atos, tornando-se fermento para a “banalidade do mal” descrita por Hannah Arendt em sua obra “Eichmann em Jerusalém”. Essa “banalidade do mal” não pode ser aceita na cidade-síntese do Brasil e do mundo, cuja missão é formar cidadãos para a sociedade, o Estado e os governos exercitarem a política do bem comum.

Não podemos deixar em branco atitudes como a privatização do patrimônio público – entrega do SUS ao setor privado, implantar a mais valia nos preços dos remédios ao serem fornecidos por farmácias privadas. Não é compreensível a lógica da perversidade, das ações “traiçoeiras, maledicentes e golpistas” abrirem espaços para emergir administrações autocratas, desrespeitosas. O que podemos esperar disso?

Lembremos o que nos ensina Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, em seu livro “Rumo ao Abismo?”, sobre o destino da humanidade. Nos chama a atenção para os caminhos e descaminhos que a humanidade percorreu, percorre e percorrerá para o bem e, principalmente para o mal.

Sonho que Brasília não dê as costas para a população da Estrutural, Sol Nascente, Por do Sol, Fercal , São Sebastião, Gama e tantas outras localidades carentes da ação eficiente do Estado. Que não deixe de exercer a pedagogia da exemplaridade para o Brasil, e traga de vez o espírito humanitário de Darcy Ribeiro, onde nossa Capital República deve ser um lugar para pensar o desenvolvimento da nação brasileira e, por consequência, dos brasilienses.

Se não é isso? O que será? O que não pode ser é deixarmos espaços para o desânimo, melancolias, tristezas, porque esses são travas aos olhos de que quem nunca se renderá às migalhas do poder, às incoerências oportunistas em troca de cargos, e muito menos colocar sua alma à venda.

Espero que a sociedade não se omita, e diga não a qualquer forma de violência do aparelho do Estado antes que o patrimônio do DF seja evaporado e tantas outras vidas se percam por aí.

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