Wasny de Roure: “Precisamos aprender com os erros do passado”

 

Foto: Antonio Sabino/Brasília Capital

Qual sua avaliação do atual governo? – Rollemberg sempre atuou na cidade querendo demonstrar uma diferença na maneira de fazer política. Mas ele sempre teve d

ificuldade de manter seus quadros políticos, de valorizá-los e eles crescerem.

Ele é centralizador?  – Eu não saberia interpretar o motivo pelo qual as pessoas que se aproximam dele acabam não encontrando espaço para crescer politicamente. Outra questão bastante desconfortável é a sua postura autoritária de tratar as questões públicas e a falta de respeito à divergência de opinião. Essa é uma das grandes fraquezas dele no modo de gerir.

Esse perfil dele não se alterou?  – Aquilo que ele condenava é o que ele mais aplica, que é a tentativa de comprar lideranças. Por exemplo, a história da (Mar

ia de Lourdes) Abadia. Se avizinhando o início do processo eleitoral, quer trazer um partido com nome, patrimônio, quando se deve formatar um leque de alianças naturais de maneira programática, e não fazer arranjos de cargos para que entre com seu nome, história e os cargos que ele vai oferecer. E assim está fazendo com alguns nomes, inclusive no meio evangélico ligado ao cenário político, e na Câmara Legislativa. Ele tem tentado atrair com cargos e adotado a postura de que Brasília não tem candidato à altura da tarefa. Mas pode ser surpreendido.

Quem são esses candidatos à altura? – Nós temos nomes na vida pública de Brasília que têm que ser respeitados. A vida pública é muito complexa para tentarmos, sem conhecer, descredenciar outras pessoas porque não pensam igual a gente. Acho que esse é um dos grandes erros da maneira de se fazer política em Brasília. Faço a autocrítica no PT e na esquerda. Acham que outros não têm valor. Isso é uma estreiteza dessa complexidade que é a política, em particular no DF.

O senhor já colocou seu nome como candidato ao Senado… Isto é um debate interno no PT. Tenho que fazer essa ponderação, porque não é honesto alguém querer se apresentar sem a anuência político-partidária. Então, eu diria que me coloco como pré-candidato. Não posso sair fazendo campanha, até porque estaria ferindo a legislação.

As conversas internas são um ponto de partida, mas não impedem que existam outras conversas com possíveis aliados de outras legendas… Tenho conversado com possíveis candidatos e partidos. Isso é fundamental. Candidatura majoritária tem que se conversar com o maior número. Inclusive, com partidos que podem não estar com a gente. Numa candidatura ao Senado tem que ter capacidade e sensibilidade de aglutinar nomes. Principalmente para quem não tem estrutura econômica para enfrentar uma campanha desse porte. Eu não tenho recursos. Sou contra, inclusive, usar recursos próprios. Vai ser no debate, no convencimento de ideias e história. É muito importante que a população faça uma retrospectiva da história.

O PT sofreu desgastes muitos grandes após o governo Agnelo e o impeachment de Dilma. Mas o senhor tem um histórico de candidato Ficha Limpa. Como avalia seus possíveis adversários que não têm esse histórico? – Não sou daqueles que acham que precisa fazer propaganda de honestidade, seriedade, probidade. Estou no meu sexto mandato. Tenho todas as condições da população avaliar, desde o meu imposto de renda na internet, até minha trajetória de projetos, debates na cidade e negócios. Essa postura é a minha criação, meu compromisso com a população.

Sua formação religiosa também? – Também. Ela norteia os valores. Honestidade não é um requisito da política. É um requisito da vida. Entendo dessa forma.

Quais serão os principais eixos de sua candidatura? – Há alguns temas cruciais neste debate. O primeiro é o financiamento da cidade. Nós temos uma cultura de perdão fiscal extremamente perniciosa. E uma negligência em algumas áreas, bastante condescendente com alguns e bastante oneroso com outros. Acho que há a necessidade de o país fazer um acerto disso, no sentido de revisão da estrutura tributária. Mas construindo uma estrutura que seja viável e não tão alta que se torne inexequível. O segundo tema que considero importante para Brasília é, no caso do Fundo Constitucional, fazer uma luta para que ele possa transferir o seu superávit para o ano subsequente. Hoje, isso não é possível. É devolvido. O mesmo tem que ser feito com os recursos da Saúde, além de torná-los mais flexíveis.

Foto: Antonio Sabino/Brasília Capital

E a questão da criação do Instituto Hospital de Base? O senhor fez uma representação que foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça do DF… – Eu perdi no argumento. Ele disse que é possível eles fazerem, fora do setor público, arranjo para fortalecer a Saúde. Isso é verdade. Agora, o que está judicializado é que o Ministério Público e outros órgãos não abriram mão do processo licitatório e do concurso público para o trato destas duas questões. Admito que a saúde pública e o SUS têm bastante dificuldade de agilidade, de procedimento que dê mais celeridade diante da magnitude e complexidade dos problemas com que eles se defrontam, insuficiências de recursos e de pessoal, de médicos… Mas acho que nós temos que aprender um pouco com os erros do passado. Foi um erro ter combatido o programa Mais Médicos. Foi um programa exitoso. Nós temos que discutir com as corporações para ver o que é possível fortalecer. A grande novidade na saúde pública do país nestes últimos anos foi o Mais Médicos. Porque, hoje, você tem uma certa resistência ao programa no país. Mas ele mostrou suas eficiências, mas tem que ajustar para poder torná-lo um programa exitoso. O atual governo não quis ampliar e criar incentivos. Mas creio que o Mais Médicos mostrou a capacidade de responder muitas demandas da nossa população. Então, creio que há a possibilidade de ter a parceria com o setor privado. Mas, não utilizar daquilo que já existe com o setor público. Essa é minha divergência no que tange ao Instituto Hospital de Base. Eu defendo o Hospital da Criança. Agora, não desconheço que o hospital nasceu dentro de um terreno público, mas com um esforço da sociedade civil. Não é pegar uma coisa já pronta para começar. Desfazer daquilo que está funcionando para começar do zero um novo projeto. Acho isso ruim: achar que eu estou iniciando uma coisa que é boa, enquanto a outra não servia. Pelo contrário.

Então, como recuperar o Hospital de Base? – Ele vem sendo sucateado. O que tem que ser analisado são os problemas que dificultam seu funcionamento. Um prédio daquele que a vida inteira foi público, que funcionou bem, agora ser descartado?

Não só o prédio, como a equipe… Claro, que é o essencial: médicos e cirurgiões de alta qualidade. Essa é a referência que somos contra perder. Tem que aperfeiçoar, melhorar, incentivar, comprar equipamentos, manter contratos em dia e a manutenção dos equipamentos.

Nas suas andanças pelas cidades do DF, quais são as principais demandas dos brasilienses? – Existe um problema crucial, hoje, em Brasília, que é o debate do equacionamento habitacional. O atual governo atrasou muito esta agenda, por não tomar iniciativas mais firmes e encontrar soluções. Existem algumas medidas que o governo precisa tomar de maneira mais célere e enfrentar essas ocupações que hoje existem. Esta semana, por exemplo, estive na Vila do Carroceiro, em Santa Maria. Era uma área destinada à ocupação para carroças e cavalos, gleba cedida pela Secretaria da Agricultura. Hoje, moram 400 pessoas. Na Expansão de Samambaia, entre a expansão da época do Roriz e a expansão da época do Arruda, tem por volta de 700 famílias que invadiram parte do Parque do Gatumé. Tem a invasão da 611 de Samambaia. Temos lá no Córrego do Atoleiro, em Planaltina. No Paranoá tem uma ocupação muito acentuada atrás da Estação da Caesb. Fiz uma audiência lá com a Comissão de Assuntos Fundiários.

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