Vocês (eles) são burros e feios

Há muito que conhecia Mário Quintana, não só como brilhante prosador, mas, sobretudo, como um dos maiores poetas brasileiros. Nascido na cidade gaúcha de Alegrete, teve sempre Porto Alegre como base de apoio. Primeiro ao cursar seus estudos no Colégio Militar, posteriormente trabalhando sob as ordens de Érico Veríssimo, na Livraria do Globo, editora de renome nacional; e, finalmente, assinando uma coluna literária no Correio do Povo, uma das melhores folhas do País, que compunha a empresa jornalística Caldas Júnior, de saudosa memória, juntamente com mais dois jornais diários e a Rádio Guaíba.

Ciente da presença de Quintana na capital do Rio Grande do Sul, fiquei feliz da vida quando, em 1982, fui convidado para trabalhar na Folha da Tarde, que fazia parte do mencionado acervo e funcionava no mesmo prédio que ocupava quase um quarteirão no centro da cidade. E nem bem tomei posse na nova função, corri à Redação do CP para dar um abraço em Quintana, e lhe dizer, entre outras coisas, que estava revoltado por ele ter tentado três vezes ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, sem ser aceito pelos falsos “imortais”.

Qual não foi a minha frustração ao me deparar diante de sua mesa vazia. Porém, fui socorrido por um colega: “Olha, o Mário deu uma saída, mas você pode encontrá-lo no Bar do Galo, que fica lá embaixo, na rua da Praia!”.

            Cinco minutos depois, encontrei o poeta ocupando uma mesa e empunhando um copo diante de uma garrafa de cerveja gelada. Gaguejando, me apresentei: desde os tempos de estudante que tinha lido quase tudo que ele escrevera. Como recebi em resposta um doce sorriso, tomei a liberdade de puxar a cadeira e me sentar ao seu lado, enquanto o poeta dava um lindo gole na sua cervejinha. Emocionado, cheguei até a declamar um de seus versos que mais gostava, caracterizando os maus-caráter que a gente encontra por aí e que cada vez aumentam mais, tal qual o cordão dos puxa-sacos:

– Não tenho vergonha de dizer que estou triste. / Estou triste porque vocês são burros e feios. / E não morrem nunca!”

 

PS – Em tempo: onde está escrito “vocês”, leia-se “eles”.

 

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