Você não quer mais respirar veneno

“Eu comecei a vomitar várias vezes, até que vomitei tudo que tinha no estômago, e continuei com ânsia. As aulas foram canceladas para todo mundo e eu fui para casa”. O relato é da estudante Carina Souza, da Educação para Jovens e Adultos da escola municipal de Primavera do Leste, em Mato Grosso.

A escola rural onde Carina estuda atende a pouco mais de 100 alunos, com aulas para estudantes de 15 e 16 anos durante o dia e para adultos à noite. A menos de 15 metros do colégio há um grande cultivo de algodão. Carina e vários colegas sofreram intoxicação aguda devido ao uso de agrotóxicos na plantação.

A estudante figura em uma pesquisa inédita feita pela organização internacional HumanRightsWatch (HRW), intitulada “Você não quer mais respirar veneno” e divulgada na sexta-feira (20). De julho de 2017 a abril de 2018, os pesquisadores entrevistaram 73 pessoas afetadas pela deriva de agrotóxicos em sete locais em zonas rurais das cinco regiões brasileiras – incluindo comunidades rurais, indígenas, quilombolas e escolas rurais.

Em todos os locais, as pessoas descreveram sintomas de intoxicação aguda por agrotóxicos recentemente aplicados em plantações próximas. “Esses sintomas geralmente incluem sudorese, frequência cardíaca elevada e vômitos, além de náusea, dor de cabeça e tontura”, explica Richard Pearshouse, diretor da HRW responsável pela pesquisa.

Richard destaca, no entanto, que apesar de o relatório apresentar casos de intoxicação aguda, a exposição continuada a agrotóxicos também é uma séria preocupação de saúde pública. “A exposição repetida a doses baixas por um período prolongado está associada à infertilidade, a impactos negativos no desenvolvimento fetal, ao câncer a outros efeitos graves à saúde”, afirma o pesquisador.

 

Ataque à saúde e ao meio ambiente

Na contramão da preferência mundial por alimentos orgânicos e produtos de fato naturais, o Congresso Nacional aprovou pouco antes do recesso parlamentar um projeto para flexibilizar o controle sobre agrotóxicos no país.

O projeto de lei 6.299/02, de autoria do senador e atual ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi, abre as portas do Brasil para a comercialização de venenos cada vez mais danosos aos brasileiros.

Na pesquisa feita no Brasil, no entanto, a organização internacional constatou justamente o contrário: é preciso urgentemente adotar medidas para limitar a exposição a agrotóxicos que são prejudiciais à saúde humana.

O estudo sugere que as autoridades brasileiras conduzam um estudo detalhado e imediato sobre os impactos à saúde e ao meio ambiente do atual tratamento dispensado aos agrotóxicos.

De maneira taxativa, recomenda ao país suspender imediatamente a pulverização aérea de agrotóxicos, além de impor e assegurar uma proibição imediata à pulverização terrestre próxima a locais sensíveis.

 

Chuva de veneno

O relaxamento da legislação brasileira em tramitação no Congresso Nacional não significa que nossa fiscalização seja rígida com relação aos agrotóxicos. As aeronaves que pulverizam veneno nas plantações, na maioria das vezes, sequer são registradas e praticamente nenhuma possui GPS para que o poder público fiscalize seu itinerário e a impeça de percorrer áreas residenciais.

O descaso da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) com o tema é tão evidente que até mesmo os barcos de pesca do país possuem a tecnologia do GPS e são devidamente fiscalizados pela Agência Nacional de Águas (ANA).

“O avião sobrevoa nossas casas com o pulverizador ligado. Nós não esperamos, nós corremos para dentro das casas. Os agrotóxicos são muito fortes”, relata Uiara, uma mulher de cerca de 50 anos que vive em Minas Gerais.

No Brasil, não há também uma zona de segurança estipulada em Lei para ser respeitada entre grandes plantações e áreas residenciais. Mesmo nos estados que criaram normas nesta linha, a regra não é respeitada pelos agricultores.

A situação no país é alarmante. A título de alerta, vale ressaltar que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o uso contínuo de agrotóxicos é responsável por cerca de 200 mil mortes por intoxicação aguda por ano.

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