Vitória do fisiologismo

O resultado do primeiro turno das eleições municipais revela que a política no Brasil ficou ainda menor, assenhoreada pelo conjunto de partidos de centro-direita assumidamente fisiológicos, conhecido por Centrão. Esses partidos, absolutamente desprovidos de ideologia, que desde sempre compuseram com governos das mais variadas matizes ideológicas (Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro), vêm aumentando sua representação no Congresso Nacional e nas esferas estaduais e municipais.

São, hoje, nada menos que 17 legendas nesse campo, que saltaram de 36 milhões de votos em 2016 (34,8% do total) para 45 milhões em 2020 (43,5%). Destaque para os quatro grandes (PSD, PL, Progressistas e Republicanos), que respondem por cerca de 60% desse total. No comando “envergonhado” do Centrão emerge o DEM, que também cresceu, de 4,9% para 8% dos votos totais, devendo ficar com três grandes capitais (Salvador, Curitiba e Rio). Tamanho aumento na votação, naturalmente, se refletiu no número de prefeituras conquistadas e vereadores eleitos.

De outro lado, PSDB e MDB, dois partidos tradicionais de centro-direita (que compõem com o DEM e Centrão na defesa das pautas liberais no Congresso), tiveram grande perda de votos, de 32,8 milhões em 2016 (31,6% do total) para 21,6 milhões (20,9%). O PSDB, cada vez mais recluso a São Paulo, e o MDB, cada vez mais desfigurado.

Também a esquerda teve desempenho ruim. O PT até melhorou seu desempenho nas grandes cidades (disputa o 2º turno em 15), mas obteve apenas 7 milhões de votos (6,8% do total), um pequeno crescimento em relação ao resultado catastrófico de 2016 (6,5%), mas muito inferior ao patamar alcançado nas eleições de 2004, 2008 e 2012, quando obteve entre 16% e 17% dos votos. O PSOL obteve leve aumento na votação, mas um grande desempenho em São Paulo, indo para o 2º turno.

Já as siglas de centro-esquerda (PDT, PSB, PCdoB e Rede) perderam votos, decrescendo de 17% em 2016 para 12,5%. No total, o campo progressista obteve apenas 21,4% dos votos em 2020 ante 25,5% em 2016. E o número de prefeituras conquistadas, que já tinha refluído de 1.420 em 2012 para 1.079 em 2016, caiu para as 795.

Esta eleição representou, também, mais um revés para Bolsonaro, que viu Trump, seu principal aliado na arena internacional, ser derrotado nos EUA; vê sua popularidade voltar a cair, especialmente em estados populosos como São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul; e agora vê os candidatos que tiveram seu apoio sendo fragorosamente derrotados (em São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Manaus) ou indo enfraquecidos para o 2º turno (Rio e Fortaleza).

Por fim, registrou também a debacle de candidatos religiosos (Russomano, Crivela), do aparato de segurança (delegados e militares) e dos azarões (Witzel, Moisés, Zema, Ratinho Júnior e Ibaneis), que em 2018 estiveram tão em moda.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável (UnB), ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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