Vida, morte e suicídio

Sobrevivendo em situação degradante, dada a precária assistência da Funai, expostos ao iminente perigo de serem colhidos de surpresa por jagunços dos latifundiários de Mato Grosso do Sul e mortos, a comunidade indígena Pyelito Kue, composta por aproximadamente duzentos nativos, sendo cinquenta deles crianças, da etnia Guarani-Kaiowá, na fazenda Cambará, em Iguatemi (MS), agora “confinados”, por determinação judicial, numa área de apenas um hectare (10.000 metros quadrados), graças ao entendimento da desembargadora Cecília Maia, do Tribunal Regional Federal da 3a. Região, que revoga decisão liminar do Juiz Federal de Maviraí (MS), que havia determinado a desocupação da área. Com a decisão, a desembargadora assegura a permanência dos índios, como que encurralados, até a demarcação e respectiva  homologação das terras indígenas.

Enquanto isso, o Conselho Missionário Indigenista (CIMI), que poderia ser chamado de “conselho milionário”, sublima os suicídios sistemáticos de índios, ao argumento de que eles não falam em suicídio coletivo, mas sim em morte coletiva, embora não defina, dito conselho, nem a importância da vida, menos ainda a diferença entre morte e suicídio. Cá para nós, entendo que morte é morte, pouco importando o que a tenha motivado.

Não é de hoje que se presenciam massacres, os mais variados, tanto às comunidades indígenas quanto a muitos outros grupos sociais, que convencionaram chamar “ninorias”, sejam urbanas, rurais ou silvícolas.

A decisão da magistrada do TRF sul-matogrossense, que revogou determinação do juízo federal de primeiro grau, determinando a retirada dos indígenas da terra em que vivem, é louvável. De grande acerto. Pequeno mesmo é o tamanho da área por ela estipulado, em que devem permanecer os indígenas, aguardando o desfecho da demanda, que não se sabe quando (e se) ocorrerá.

É sabido que índio não gosta muito do trabalho convencional dos brancos, nem mesmo nas atividades agrícolas, sendo mais afeitos ao extrativismo, à caça e pesca e ao artesanato. Todavia, mantê-los amontoados, ilhados numa área delimitada demasiadamente pequena, também representa impor-lhes outra forma de sacrilégio.

Assim, já sabemos que índio não quer mais apito. Nós, brancos e de outros tons, é que devemos nos munir deles e de outras formas de alertar, para, quem sabe, um dia podermos evitar o que até hoje não conseguimos, talvez porque nunca tenhamos ficado atentos ao problema em toda a sua extensão.

Talvez pudesse o conflito ser solucionado, se todos os órgãos diretamente envolvidos no assunto se debruçassem sobre o mesmo, com firmeza, determinação e vontade de resolver. Enquanto isso não ocorre, permito-me sugerir uma sessão especial da igreja católica (leia-se CIMI), com todas as rezas, benditos e orações, associada a uma boa pajelança, com todas as fumaças de estilo e da melhor, quem sabe, assim, fariam as duas forças uma escadinha para chegar até Deus. Somente ele daria cabo a essas intrigas e à incapacidade dos homens de resolver suas mazelas.

 

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