UTI: a fronteira do Além

Depois de estar fora do ar não sei por quanto tempo, com as pálpebras pesadas feito chumbo, afinal consigo abrir os olhos. Diante de mim há uma névoa que se dissipa gradativamente. Só agora consigo vislumbrar a extensão do espaço sombrio onde me encontro, no qual algumas moças de uniforme azul transitam em silêncio. Observo atentamente que elas não usam asas. Então concluo que ali não é o Céu convencional, e sim, no mínimo, o Purgatório. Se este é tão ruim, como dizem, ainda não dá para avaliar. O mais importante é que aquela dor lancinante, que me queimava o lado esquerdo do peito, já passou, sendo substituída por uma sensação de que meu corpo está oco.

Pouco a pouco, as imagens se ajustam na memória, dando conta de que estou vivo. Lembro da primeira pontada que senti em casa. Em seguida, o meu filho Cláudio voando em seu carro, pela W3 Sul, rumo ao pronto socorro, acompanhado de minha mulher Ledinha. Ambos entram correndo no Hospital Santa Lúcia. A dor continua insuportável. Emito gemidos e sinto vontade de gritar. Não o faço por pura vergonha, resquício de falsa valentia, porque não quero preocupar ainda mais os meus bem-amados. Sou submetido a um eletrocardiograma, cujo resultado imediato é: Infarto! Ainda na maca, transportam-me a uma sala de cirurgia. Antes, ouço as vozes de meu filho e de minha mulher.

Ele:

– Pai querido, aguente firme porque estamos juntos!

Ela:

– Por amor de Deus, não me deixe, Companheirão!

Três dias depois, já me familiarizei com a rotina desta enfermaria de UTI, sigla do rótulo Unidade de Terapia Intensiva. Isso quer dizer que o paciente terá (em tese) atendimento permanente. Claro, que se tiver dinheiro vivo no bolso ou um bom plano de saúde. Caso contrário, vai ter que recorrer ao SUS (Sistema Único de Saúde) e entrar na fila de espera, entre 30 e 60 dias. Se for ataque de coração, a exemplo do meu caso, com certeza vai morrer no meio da rua. Como jornalista e escritor profissional, se escapar desta, pretendo escrever mais um livro contando tudo que vi e ouvi.

Por enquanto, me restrinjo a ouvir o grito desesperado de uma senhora loura, aparentando entre 40 e 45 anos, na cama num box ao meu lado:

– Eu quero morrer, eu quero morrer!

De minha parte, aos 87 anos, dou um grito em silêncio ao meu coração infartado:

– Eu quero viver, eu quero viver!

PS – Crônica escrita no ambiente soturno de uma UTI brasiliense.

Fonte:

Deixe um comentário