Uma velha promessa não cumprida

Ela não me viu, felizmente. Digo felizmente mais por ela do que por mim, isto porque, na certa, levaria um grande choque se me reconhecesse, ali quase ao seu lado naquele pequeno aeroporto paquistanês de Karachi, Sudeste Asiático, comprovação da tese de que até as pedras se reencontram.

Não sei se ela lembraria de uma bonita história de amor vivida há cerca de 30 anos, na qual só havia dois assustados personagens: um rapaz pobre e uma moça rica. E também não sei se ela recordaria do diálogo de uma solene promessa que fizemos juntos, naquele tempo em que os jovens acreditavam sinceramente no “amor único e eterno”:

– Vou te amar pelo resto da minha vida!

            – Eu também, juro por Nossa Senhora Aparecida!

 E choramos, sentidamente, num abraço de adeus antecipado por motivos alheios às nossas respectivas vontades, separação na certa financiada pelo dinheiro de sua família. Lembrei que ela era alta, esguia (falsa magra) e tinha os olhos cor de violeta. E quando abria a boca para falar comigo, o meu coração ficava pendurado nos lábios dela, à espera de seu largo sorriso de dentes de pérolas.

Mas, naquele momento, com certeza, a erosão do tempo maltratara a sua beleza: o então corpo de curvas harmoniosas tinha se transformado numa massa disforme, com gordura sobrando nos quadris, na barriga, nos seios e no tórax de diâmetro assustador.

Além da velhice prematura, pelo jeito, ela havia piorado de educação, pois falava alto como se sua presença fosse o fato mais importante do dia.

Segurando o seu braço, um homem grisalho, de aparência cansada, ouvia pacientemente o monólogo com aquela expressão vencida de quem sabe que não adianta discordar.

As vistosas alianças nos dedos das mãos esquerdas do casal sugeriam um matrimônio na base do “até que a morte vos separe”. Mas, afinal, tinha sido casamento por amor ou por votação unânime das múmias familiares? Aí me dei conta: e a tal solene promessa de amor tinha se evaporado?

E senti que alguma coisa grande dentro de mim morria para sempre, no exato momento em que aquela mulher gorda deu uma estrondosa gargalhada, digna de um triste rei Momo de saias.

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