Uma só voz: Teje preso!

Teje preso!”. Era com esta corruptela do verbo esteja que os policiais dos anos 1960/80 anunciavam a prisão de meliantes. A partir da década de 1990, os malandros dos morros do Rio de Janeiro instituíram a ordem “Perdeu!” para intimidar suas vítimas em assaltos à mão armada. Paradoxalmente, as forças policiais também incorporaram o verbete durante as ações contra a bandidagem. Na terça-feira de carnaval (16), o ministro Alexandre de Moraes mandou a Polícia Federal recolher “aos costumes” o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), por ataques aos magistrados e à Corte via redes sociais. E o decano Marco Aurélio Mello resumiu a decisão unânime dos 11 ministros do Supremo: “Somos uma só voz”. Portanto, Excelência, teje preso!

Valentão afinou

Em sua defesa na Câmara, Daniel Silveira disse que se excedeu afinou o discurso com relação à democracia. Pediu desculpas aos deputados, ao povo brasileiro e ao STF.

Mudança – Durante a audiência de custódia, na quinta-feira (18), o parlamentar já havia mudado completamente a postura. Diante do juiz Airton Silveira, que atua como instrutor no gabinete do ministro Alexandre de Moraes, nem de longe lembrava o autor do vídeo de 19 minutos publicado na terça-feira (16), xingando e desacatando os magistrados do Supremo.

Respeito – “Aproveito para exteriorizar que, no meu entendimento, com todo o respeito à magistratura e à decisão do senhor ministro, tenho para mim que a situação, reputada como flagrante, assim não poderia tê-lo sido”, esmerou-se Silveira. E prosseguiu: “Entendo, com todo respeito reiterado, que não estávamos diante de uma situação de flagrante, cuja lavratura fora, então, irregular”.

Surra – Uma postura totalmente diversa do vídeo da terça, onde o parlamentar do PSL carioca afirmava que “o ministro Edson Fachin, do STF, tem cara de “filha da p. e vagabundo. Várias e várias vezes já te imaginei levando uma surra. Quantas vezes eu imaginei você e todos os integrantes dessa Corte…”. Em outro trecho, xingou Alexandre de Moraes de “cretino”.

AI-5 – Após dormir uma noite numa sala da Polícia Federal na zona portuária do Rio e ser transferido para a carceragem de um quartel da Polícia Militar em Niterói, o deputado também parece ter esquecido a defesa a defesa do Ato Institucional número 5 (AI-5), baixado pela ditadura militar em 1968.

Fachada – No entanto, ao circular pelo pátio do quartel da PM na noite de quinta-feira, foi saudado por alguns fanáticos extremistas de direita. E não se conteve: “Vou mostrar ao Brasil quem é o STF”, esbravejou Alexandre Silveira, deixando claro que o aparente arrependimento demonstrado diante do juiz na audiência de custódia era apenas fachada.

Expulsão – Mas a situação dele pode se complicar dentro do próprio partido. A direção nacional do PSL decidiu, na quarta-feira (17), que irá expulsar o bolsonarista de seus quadros. A Executiva da legenda entendeu que o parlamentar ofendeu de “maneira vil” a honra dos ministros do STF e repudia com veemência os ataques disparados no vídeo de terça-feira. 

A vereadora Marielle Franco, 38 anos, em uma imagem de arquivo: ela e o motorista Anderson Pedro Gomes foram assassinados a tiros na quarta-feira, 14 de março, no centro do Rio. REPRODUÇÃO

Marielle – Ainda na quarta-feira, a irmã da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, ironizou Daniel Silveira nas redes sociais. “Quero ver quebrar plaquinha na cadeia”. Durante a campanha de 2018, em ato conjunto com o ex-governador Wilson Witzel e o deputado Rodrigo Amorim ele quebrou uma placa com o nome de Marielle.

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