Uma história que não se conta nos bancos escolares

A memória de Brasília se corrói como a madeira do museu da Candangolândia no Setor de Postos e Motéis. Foto: Chico Sant’Anna

Brasília completa 60 anos em abril. Em termos de história da humanidade, a cidade ainda engatinha. Para a memória dos que aqui chegaram nos primeiros momentos, uma eternidade. Já virou, infelizmente, lugar comum dizer que a cidade perde sua identidade, perde sua originalidade enquanto proposta urbanística, o verde para o avanço da especulação imobiliária e o seu patrimônio histórico.

Prova disso é a situação das casas de madeira remanescentes da Vila Planalto. A imprensa mostrou o abandono em que se encontram estruturas que fazem parte desse pouco mais de meio século de existência. Mas não são só os elementos físicos – monumentos, cerrado, planejamento urbano, equipamentos comunitários – que estão desaparecendo. A memória em forma de história também se evapora.

Os pioneiros que aqui chegaram adultos antes da inauguração ou momentos após já são poucos. Restam os que chegaram crianças ou que nasceram aqui e que também já estão ficando idosos. São tão raros que pessoas que chegaram nas décadas de 1970 e 80 se sentem “pioneiros da segunda leva”.

Assim, a epopeia do que foi construir a cidade no meio da jungle – como gostavam de retratar os jornalistas estrangeiros – vai se dissipando. Brasília não está sabendo preservar o projeto inovador de Lúcio Costa e também não se preocupou em preservar a memória do lado humano da cidade. Não temos um espaço que possa ser chamado verdadeiramente de Museu da História Candanga. O que existe, nas imediações do Setor de Postos e Motéis da Candangolândia, assim como a nossa memória, se corrói com o apodrecimento das madeiras.

Memória – Resta preservar a história contada, já que são poucos os livros que registram o nosso cotidiano após abril de 1960. Nossas escolas, públicas e privadas, são incompetentes em repassar para as novas gerações todo esse processo histórico. O que se ensina no DF sobre Brasília é praticamente o mesmo que se ensina em Manaus ou Porto Alegre: Uma visão estadista, oficial da transferência da Capital.

Mesmo assim, é um ensino falho. Omite por exemplo, as iniciativas de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. Os trabalhos da Missão Poli Coelho, em 1946, comandada pelo geógrafo francês Alain Ruellan – nomeado por Vargas diretor do IBGE – são desconhecidos da quase totalidade dos brasilienses, inclusive daqueles melhor informados.

Consolidação da Cidade – A consolidação da cidade, a transformação do traço de grafite no papel manteiga em realidade concreta é esquecida. Sequer têm ideia de que, no início, nem abastecimento local de material de construção existia. Construtoras se viravam para produzir brita, areia, tijolos e brigar pelos carregamentos de cimento e ferro que só chegavam até Anápolis.

Nossos livros de História não contam isso. Muito menos o nascimento das cidades, outrora satélites. Pergunte a um adolescente da Ceilândia se ele ouviu falar no Movimento dos Incansáveis da Ceilândia. Ou a alguém do Núcleo Bandeirante se conhece a carga que Jânio Quadros fez para extinguir a Cidade Livre.

Mesmo a origem ou a razão dos nomes de nossas cidades, muitos desconhecem. Falar mal da Câmara Legislativa, muitos fazem fácil. Contar a bravura de enfrentar a Ditadura Militar para alcançar a autonomia política, poucos conseguem. Até a Ponte Honestino Guimarães foi cassada.
Tancredo Neves, certa vez, afirmou que conhecia muitos brasileiros cassados de seus direitos políticos, mas uma cidade inteira, só Brasília. E Brasília está sendo cassada agora pela omissão em não repassar às novas gerações o que essa cidade representa efetivamente.

Quem deveria estar preservando essa rica história, seus personagens e locais deveriam ser as escolas. Em especial as da rede pública. O Ensino da História e da Geografia do DF e da Região Integrada de Desenvolvimento do Entorno (Ride) faz parte do conteúdo programático a ser ministrado no 4º do Ensino Fundamental e no 2º ano do ensino médio.

“Muitas vezes ele não é trabalhado com a ênfase necessária, principalmente por falta de uma maior valorização da nossa história. Atualmente, mais de 50% dos residentes do DF nasceram aqui, mas o vínculo com o “lugar” é diminuto. Ainda estamos em construção de uma cultura brasiliense enraizada na formação da nossa sociedade”, alerta o professor Urani Jefferson, há 27 anos lecionando na rede pública.

“A ‘identidade do Distrito Federal’ e ‘Conhecer a história de Brasília, curiosidades e a história de vida de pessoas que constituem esse contexto’ são itens constantes no currículo da educação infantil. No 2º ano do ensino fundamental, por exemplo, tem “Conhecer espaços culturais de Brasília com promoção ao sentimento de pertencimento à cidade, mas não posso garantir que seja bem trabalhado”, esclarece o professor de História, Agnelo Balbino, que leciona no Gama e Santa Maria.

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