Um vazio de 25 anos

Mundico teve duas Marias. Com a primeira, três filhos. Com a segunda, outros quatro. Sou o mais velho da nova geração. Antes de mim, são dois homens e uma mulher. Depois, vieram duas mulheres e um homem. Portanto, sou o Pontes do meio. Só não sei é se consigo fazer a ligação correta entre os dois lados da prole de Mundico.

Para formar a nova família, após a viuvez, Mundico precisou do consentimento de seu compadre Aristides. Compadecido com a solidão do amigo, meu avô não impôs dificuldade à pretensão de meu pai de desposar uma de suas cinco filhas, mesmo com a diferença de 33 anos entre ele e minha mãe.

Casaram-se em 1958 e viajaram dezoito dias na carroceria de um caminhão pau-de-arara desde Nova Russas, no sertão do Ceará, até ao Planalto Central. Vieram para a construção de Brasília. Ele, marceneiro. Ela, uma jovem dona de casa determinada a enfrentar qualquer dificuldade na lida doméstica – lavar roupa, limpar o chão, carregar lata d’água na cabeça e preparar refeições para os trabalhadores e, assim, completar a renda da família.

Moraram nos acampamentos da antiga Cidade Livre, na hoje submersa Vila Amauri, e na Vila Planalto, onde nascemos eu e minha irmã Tilinha. Mudaram-se em 1964 para Taguatinga. Foi ali que a família se completou com a chegada dos dois caçulas.

Mundico e Maria abrigaram dezenas de parentes que chegaram depois deles. O barraco sempre cabia mais uma cama e, à mesa, onde comiam dois, comiam dez. Ele não pensava em fazer fortuna, tampouco em se demorar muito por estas paragens. Sonhava em voltar para o seu Ceará. Minha mãe, não. Aqui era a sua terra prometida. Não arredaria pé. Ao Ceará, só a passeio.

Mundico nos deixou em 28 de outubro de 1988, aos 86 anos. Mas nos legou o histórico de um homem pobre, mas digno; boêmio, mas responsável; sonhador, mas solidário; sério, mas alegre.

Neste segundo domingo de agosto de 2013, sentirei pelo 25º ano a falta da presença de Seu Mundico no almoço do Dia dos Pais. E é por saber o que representa este vazio, que recomendo àqueles que ainda gozam do privilégio de ter um pai vivo: curtam-no. Amem-no. Abracem-no. Beijem-no.

E assim, tenham todos – pais e filhos – um feliz Dia dos Pais.

 

Por Orlando Pontes

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