Um parceiro pra toda hora

O jornalista Francisco Maia, 70 anos, está há pouco mais de um ano à frente da Federação do Comércio (Fecomércio-DF). Foto: Lorrane Oliveira

Há pouco mais de um ano à frente da Federação do Comércio (Fecomércio-DF), o jornalista Francisco Maia, 70 anos, redirecionou a política da entidade. Reaproximou-se da diretoria da Confederação Nacional do Comércio (CNC) – com quem seu antecessor, Adelmir Santana, havia rompido – e passou a trabalhar em parceria com o governador Ibaneis Rocha (MDB).

Por intermédio do Sesc-DF (Serviço Social do Comércio), pagou o Natal Sempre Monumental, festa que reuniu mais de 200 mil pessoas na Torre de TV. E promete repetir e aperfeiçoar a experiência na virada de 2020 para 2021. A entidade quer trabalhar para incrementar o turismo, a cultura e o lazer na cidade.

Nesta entrevista ao Brasília Capital, Francisco Maia reforça o apoio a iniciativas como as mudanças de destinação de áreas do Setor de Indústrias Gráficas (SIG) e a revitalização da W3 e do Setor Comercial Sul. “Além do seu objetivo sindical, a Fecomércio também tem de falar com a sociedade. Tem que ter parceria com o governo”, acredita.

A gente busca ter recurso pra poder promover a cidade e trazer grandes eventos. Isso bota gente nos hotéis, nos restaurantes. Movimenta a cidade” . Foto: Lorrane Oliveira

Como avalia as parcerias da Fecomércio com o GDF? – A Fecomércio já teve muitos problemas de ordem política. No governo Rollemberg praticamente não existia diálogo. Desde que assumi, em janeiro de 2019, entendi que deveria ter um diálogo muito próximo do governo. Até porque, assim, a Federação do Comércio, além do seu objetivo sindical, também tem de falar com a sociedade. Tem que ter parceria com o governo.

Foi firmado algum compromisso formal? – Um dos primeiros trabalhos que eu fiz, foi assinar um termo de cooperação com o GDF que abrange várias atividades do governo. Em 2019, por exemplo, só as ações do Sesc atingiram mais de 150 mil pessoas.

Quais foram essas atividades? – A troca da Bandeira, todo primeiro domingo do mês, é um trabalho nosso. Em março, tinha mais de 5 mil pessoas lá. É a ideia do turismo cívico. A Secretaria de Turismo não tem um centavo para pagar passagem para alguém ir à Bahia, por exemplo, captar um grande evento. São Paulo compra eventos. Eles vão ao exterior, negociam com os donos de eventos, trazem para o Brasil e têm lucro. Brasília, se quiser ter essa vocação, precisa ter esses investimentos, mas ainda não consegue.

Como a Fecomércio tem contribuído para mudar essa realidade? – Esta pauta tem sido uma luta aqui da Federação. A gente busca ter recurso pra isso, pra poder promover a cidade e trazer grandes eventos. Isso bota gente nos hotéis, nos restaurantes. Movimenta a cidade.

Foi o que fizeram no Natal Sempre Monumental? – Em janeiro do ano passado, quando Paulo Henrique assumiu o BRB, me disse: “Se você for fazer o Natal este ano, vai fazer comigo”. Então me animei, mas na verdade ele ajudou com muito pouco dinheiro. Mas foi parceiro de dar força. Só essa ajuda de estar ali, sofrer junto, pra mim já vale mais que qualquer coisa. Tanto que nós demos muito mais espaço pra eles do que para os outros patrocinadores, pela forma como tudo foi tratado. Nós captamos R$ 5,5 milhões, através da Lei Rouanet. Ano passado, eu até pensei em fazer o réveillon na Torre. Já tinha o palco. Fiz a proposta ao secretario de Cultura, de juntar o dinheiro dele com o nosso, trazer mais artistas para se apresentar durante o Natal. Mas não consegui a grana. Para este ano, o Ibaneis já me disse que vai colocar dinheiro no rèveillion e faremos tudo junto. Já temos R$ 3 milhões garantidos.

“Eu reiniciei esse diálogo e hoje os 28 sindicatos têm unanimidade aqui dentro. A participação do sindicato é total. Hoje, a gente está com o projeto de tornar os sindicatos protagonistas das suas ações” . Foto: Lorrane Oliveira

Mas o GDF não entra com nada? – Tive uma reunião esta semana com o André Clemente (secretário de Economia), e ele me prometeu que vai criar uma forma de a gente ter um recurso para o turismo. Alocar uma parte dos impostos já existentes para criar um fundo para o turismo. Isso vai ser uma vitória da Fecomércio.

Por que isso não foi feito antes? – Nós tínhamos problemas com os sindicatos. Eu reiniciei esse diálogo e hoje os 28 sindicatos têm unanimidade aqui dentro. A participação do sindicato é total. Hoje, a gente está com o projeto de tornar os sindicatos protagonistas das suas ações.

Eles não têm autonomia? – Na verdade, não tinham agenda. Não tinham temas para falar. E desde que perdemos o Imposto Sindical, ficaram zerados. Hoje, os sindicatos se sustentam porque nós cedemos um espaço aqui para eles.

Como tem sido o diálogo com o governador Ibaneis? – Muito bom. É uma pessoa que tem interesse no setor produtivo. Ele dá espaço. Acho que talvez outro governador não teria essa visão que ele tem. Desde que ele assumiu, eu nunca tive nenhuma dificuldade para conversar com ele. Os secretários vêm aqui me procurar, porque sabem que nós somos uma parceiro interessante para eles. Eu estou feliz por essa parceria com o governo e por essa reciprocidade.

Existe contrapartida? – Qualquer demanda dos sindicatos do setor produtivo, a gente procura o governo e eles recebem a gente com boa vontade e tentam resolver a questão rapidamente. Então, isso é a contrapartida que eles estão dando pra gente em função desse apoio que nós estamos dando pra eles.

“É desejo do governador revitalizar a W3. Começou pela recuperação das calçadas. Eu fiquei pensando se só as calçadas seriam importantes. Acho que tem que ter vida, ter atividade pra levar pessoas”. Foto: Lorrane Oliveira

Como isso se traduz em ações práticas? – O BRB, por exemplo, agora tem um agência aqui na sede da Fecomércio. Passamos a fazer, toda sexta-feira pela manhã, a Sexta do Negócio. Os empresários de um segmento vêm pra cá e discutem com os técnicos do BRB oportunidades de negócios. O banco hoje já está com a folha de pagamento dos 2.500 funcionários do Sesc/Senac.

Faz parte do projeto de expansão do banco… – Por essa parceria, já levamos o BRB para a Parnaíba, no Piauí. Ibaneis, inclusive, foi ao lançamento da agência. Há 15 dias, fomos a Belo Horizonte – eu, Ibaneis e o Paulo Henrique, presidente do banco, e abrimos uma agência lá. Mesma coisa em Tocantins. Tudo através da Fecomércio. O BRB assinou um acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio) para ser, oficialmente, o fomentador dos investimentos dos empresários da região Centro-Oeste. Tudo que está sendo feito é fruto desse trabalho. Eles estão criando um cartão do BNDES com o BRB e a CNC, que será lançado em breve.

Nesta parceria está a locação do prédio da CNC para o BRB? – Sim. Será uma torre e meia. O BRB estava fazendo cotação. Aí, quando a CNC soube, se ofereceu. É um dos prédios mais modernos de Brasília. É maravilhoso. O imóvel do Setor Bancário Sul vai ficar vazio. Eles vão fazer uma reforma e depois vai ser um centro de tecnologia.

Voltando ao GDF, vocês estão programando a criação de um corredor cultural na W-3 Sul. Como será isso? – É desejo do governador revitalizar a W3. Começou pela recuperação das calçadas, na Quadra 509. Eu fiquei pensando se só as calçadas seriam importantes. Acho que tem que ter vida, ter atividade pra levar pessoas. Como foi no Eixão do Lazer, criado pelo falecido Haroldo Meira no primeiro governo Roriz e que hoje é um sucesso.

“As pessoas começarão a enxergar a W3 como uma oportunidade de negócio. Vamos colocar lá a escola de gastronomia do Senac. Estamos comprando um prédio lá. Vai ser um point de cultura”. Foto Lorrane Oliveira

Então é isso que teremos na W3? – Exatamente. E ela tem muito mais charme. Vamos começar da 504 até 508 Sul. Depois, um pouco mais pra frente. Isso vai ativar o comércio. As pessoas começarão a enxergar a W3 como uma oportunidade de negócio. Vamos colocar lá a escola de gastronomia do Senac. Estamos comprando um prédio lá. Vai ser um point de cultura.

A relação da Fecomércio-DF com a CNC ficou muito estremecida no final da gestão de seu ante4cessor, Adelmir Santana. Como foi essa reaproximação? – Brasília é importantíssimo para a CNC. É um ponto que tem contato com os poderes. E a direção da CNC estava ausente de Brasília em função do problema que tinha com o ex-presidente. Eu entendi que a gente precisava desse relacionamento e me coloquei à disposição. Quando assumi interinamente, a primeira coisa que fiz foi ir ao Rio de Janeiro falar com o presidente. Graças a Deus, desenvolvi uma amizade e hoje tenho trânsito livre lá dentro. E eles passaram a vir a Brasília. Passaram a gostar daqui.

Além da W3, o GDF aprovou a mudança de destinação de áreas do Setor Gráfico e discute mudanças no Setor Comercial Sul. Qual a visão da Fecomércio sobre isso? – Somos a favor da revitalização do Setor Comercial Sul, de permitir o uso para residência. Ibaneis quer fazer isso, é ideia dele. Quem está cuidando do projeto é o secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Mateus Oliveira. Primeiramente, pegar os prédios que estão abandonados e permitir mudar a função, transformar em residência. Se colocar gente pra morar lá, terá vida à noite.

“Eu gosto das propostas do Paulo Guedes, mas enquanto o governo não tiver uma boa relação com o Congresso para aprovar as reformas necessárias, não vai acontecer nada”. Foto: Lorrane Oliveira

Isso não agride o Plano Urbanístico de Brasília? – A ideia é revitalizar tudo, porque ai você dá vida 24 horas. Muita coisa terá que ser desmanchada e refeita. O governo vai gastar dinheiro nisso, fazer praças, jardins, urbanismo. Tendo morador, terá que investir em segurança. Vai mudar.

Grande parte do setor produtivo local apoia as propostas do governo federal, inclusive de redução do Estado e dos salários de servidores. Isto não é um tiro no pé? Afinal, esta massa salarial é que move a economia do DF… – O empresariado de Brasília está muito voltado para a cidade, e não tem, de modo geral, uma visão nacional. De fato, em Brasília as pessoas recebem todo mês, o que dá estabilidade à economia. Mas não percebo essa preocupação com o que acontece na Esplanada. Eu gosto das propostas do Paulo Guedes, mas enquanto o governo não tiver uma boa relação com o Congresso para aprovar as reformas necessárias, não vai acontecer nada. Investidores só colocam dinheiro onde tem segurança jurídica.

Por que a Fecomércio não lidera um movimento de valorização do servidor público? Essas pessoas ganhando bem, movimentam o comércio e aquecem a economia local… – É, mas eu acho que o servidor não é o nosso público. Não estamos jogando contra, mas eu acho que a gente tem, na verdade, que promover a cidade, investir no turismo. Precisamos arrumar recursos pra gente promover Brasília, trazer grandes eventos para lotar os hotéis, bares e restaurantes nos finais de semana.

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