Um apelo à razão

Diretora do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), Rosilene Correa. Foto: Júlio Pontes

No início de dezembro de 2019, começaram a surgir pessoas infectadas com uma nova forma de pneumonia em Wuhan, na China. As vítimas eram pequenos mercadores que comercializavam produtos do mar. A China, ao detectar essa nova forma de pneumonia provocada pelo Coronavírus, isolou os casos conhecidos, fechou o acesso à cidade e colocou parte do país em quarentena. Em dez dias construíram um hospital de campanha para até mil pacientes.

O hospital foi construído em tempo recorde por empresas públicas. Mesmo com todos os cuidados e prevenções do governo chinês, o vírus atravessou fronteiras e se espalhou pelo mundo. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou o surto como pandemia. Os casos foram aumentando no mundo em uma progressão descontrolada e chegaram ao Brasil.

Os números mais atuais dão conta do sucesso da China em impedir o avanço do vírus, com o auxílio de medicamento criado em Cuba, que já curou mais de 1.500 pessoas infectadas. O mesmo não acontece com a Itália, onde a doença se espalha rapidamente, e nos EUA, onde já morreram dezenas de pessoas.

E o nosso país? Desde o golpe contra o governo popular da presidenta Dilma, em 2016, todos os esforços para tirar o Brasil da crise significavam, na prática, sufocar os serviços públicos e o investimento interno. Para isso, aprovaram, em 2016, a Emenda Constitucional nº 95, que congelou o orçamento por 20 anos.

O discurso de que o Brasil gastava demais com políticas públicas e que isso afastava os investidores estrangeiros dominou a mídia e as redes sociais apoiadas pela ignorância popular. Esse grupo repetia que todo o gasto com Saúde e Educação era comunismo, coisa de esquerdopatas.

As urnas em 2018 deram a vitória à narrativa da mídia sustentada pela radicalização das redes sociais e das fakenews. Foi eleito um presidente convicto de que o problema do Brasil é a esquerda. Ele teve o apoio de grupos racistas, misóginos, homofóbicos, criacionistas, antivacinas e terraplanistas, entre outros.

A síntese disso é um governo que só se sustenta na guerra ao inimigo comum – a esquerda. Para eles, toda a esquerda é PT.

Em seus arroubos autoritários, convocaram a população para se manifestar contra o Congresso e o STF, aproveitando-se do desgaste dos políticos. Uma manobra para o Presidente se apresentando como antipolítico, antissistema. Trata-se, porém, da mesma pessoa que por quase 30 anos foi deputado federal.

A mesma agenda neoliberal radical é seguida pelo governo do DF. Para combater a pandemia do Covid-19, o governador baixou um decreto suspendendo as aulas por um período, impedindo aglomerações com mais de 100 pessoas. Uma medida necessária, porém insuficiente.

A política de austeridade, que diminuiu os investimentos em Saúde, será o grande obstáculo para enfrentar com êxito esta emergência. Ou seja, a possível economia sucateando a Saúde poderá nos custar vidas.

Contra uma campanha antipovo, um governo federal irresponsável e uma emenda constitucional que sufoca o país, professores, deputados e senadores tentam aprovar o novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

O Fundeb representou um grande avanço para a educação básica brasileira, garantindo que os recursos fossem distribuídos equitativamente entre os municípios de cada estado da Federação, ao mesmo tempo que, nos estados onde o recurso fosse menor que o mínimo necessário, era complementado pela União.

O novo Fundeb procura melhorar isso, mesmo num ambiente político hostil, porque o atual governo vê a Educação como inimiga.

Os mesmos que congelaram o orçamento brasileiro e jogaram o país na crise econômica absurda em que se encontra, afirmavam que 6% do PIB investido em Educação era muito para pouco retorno. O problema é que o PIB não é uma referência real de investimento em política pública. Ainda mais agora com a diminuição real do nosso PIB.

A realidade é que, enquanto o Brasil investe US$ 3,8 mil anuais por aluno no ensino fundamental, a média na OCDE é de US$ 8,6 mil. Já no ensino médio, o gasto nacional é de US$ 4,1 mil, ao passo que nos países da organização o valor chega a US$ 10 mil.

Os dados estão corrigidos pela Paridade de Poder de Compra (PPP), indicador que iguala as taxas de câmbio para que um mesmo bem ou serviço fique com o mesmo preço em dólar em qualquer país.

É neste Brasil estrangulado e sob um governo pautado pelo obscurantismo que vamos enfrentar a pandemia do Covid 19. Um país aonde um presidente apoiado por quem acredita que vacina é uma forma de controle do Estado sobre o cidadão, que chama milhares a se reunir para defender ainda mais o desmonte do Estado e atacar as instituições que são fundamentais para a democracia.

Infelizmente precisamos reaprender que a Saúde preventiva pode e deve ser mobilizada a partir das escolas. Precisamos entender que sem investimento em Educação e Saúde públicas de qualidade colocamos em risco a vida dos cidadãos e o futuro da Nação.

Isto não é um discurso de esquerda. É um apelo à razão.

(*) Diretora do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF)

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