Um show em alta temperatura

Nós, brasileiros, temos mania de exaltar tudo o que é de fora e desdenhar o que é produzido aqui. Isto não é diferente em relação a eventos esportivos e culturais. Shows internacionais são sempre mais paparicados, mesmo quando o artista é um pseudocantor pop de sucesso inexplicável, como Justin Bieber.

Mágico. É esta a impressão que o UFC passa aos fãs que acompanham o evento pela televisão. A mesma que eu tinha até então. Como fã, fui até Goiânia (a 200 Km de Brasília) ver de perto o que acontece nesse tal de Ultimate Fight Night que arrasta multidões por todo o Globo. Vi atletas preparados, outros nem tanto, entre eles alguns brasileiros. Vi banheiros incrivelmente limpos. E só.

O ginásio de Goiânia estava com aproximadamente 10 mil pessoas. O público começou a chegar às 17h e os portões foram abertos por volta das 18h. A primeira luta do card preliminar começou às 20h30. Talvez esta maratona até a última e principal luta, entre o brasileiro Victor Belfort e o americano Dan Handerson tenha desgastado até mesmo as pessoas acostumadas a sofrer nas arenas e estádios.

O tempo de espera entre uma luta e outra chegava a 20 minutos. Nesses intervalos, apenas hip hips americanos faziam as honras da casa. Pouco. O calor era absurdo. Até mesmo os comentaristas, narradores e demais celebridades presentes sentiam o bafo do forno que parecia pairar sobre nossas cabeças.

Uma ação de marketing de um desses salgadinhos de saquinho distribuiu centenas de unidades para o público. Acontece que as guloseimas eram picantes, e esquentaram ainda mais o clima naquele ambiente insalubre. Fortões descendo e subindo escadas, filas nos bares, correria atrás dos vendedores. O corre-corre por água e ou qualquer outra bebida foi intenso após o tal salgadinho.

Em determinada hora do evento, após a segunda luta do card principal, acabaram todos os líquidos bebíveis. Ninguém conseguia água, refrigerante ou suco, que custavam R$ 5. Assim como o açaí do patrocinador, que era R$ 1 mais caro.

As lutas

Restou esperar a luta principal, que, ao contrário destes outros detalhes, não decepcionou. Victor Belfort, assim como os brasileiros Adriano Martins, Thiago Tavares e Rafael Feijão. Tavares, que é do policial do Bope de Brasília, contava com a torcida fervorosa dos candangos e dos brasileiros em geral, mas não foi o suficiente. Nem o homem mais resistente e treinado para suportar de tudo resistiu à potência de Brandon Thatch. O “Caveira” caiu.

Rafael Feijão entrou ao som de sertanejo, ou seja, nos braços da torcida goiana. Ainda no primeiro round desferiu uma sequência de fortes joelhadas no croata Igor Pokrajac e ganhou a luta por nocaute. Em sua entrevista, ainda no octógono, perguntou em alto e bom som “Quando eu quero mais?” todos responderam “Eu vou pra Goiás!”. Provocando verdadeiro frenesi nas arquibancadas.

Depois de dez lutas e 5h de espera, entraram os principais atletas da noite: Victor Belfort e Dan Handerson. Tanta espera para Victor, em apenas 77 segundos, liquidar a fatura, mostrar que todo o sacrifício (dele e da torcida) valeu a pena e, de quebra, conseguir uma vaga para disputar o cinturão da categoria.

A aceitação do UFC no Brasil é tão grande, que o chefão Dana White afirmou que, caso Anderson Silva retome o cinturão da categoria, que agora é de Chris Weidman, a luta entre o Spider e Belfort poderá acontecer em um estádio de futebol. É mole?

Vale os parabéns aos atletas, o puxão de orelha na organização e a exaltação ao Brasil e aos brasileiros que fazem até os momentos mais tensos e cansativos virarem piada e alegria.

Liguem o ar condicionado do ginásio, por favor!

 

Gabriel Pontes

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