Tuítes, tanques e baionetas: o golpe em 10 atos

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Após o golpe que destituiu a presidente Dilma em 2016, os golpistas viram a necessidade de completar a “obra”, promovendo um novo golpe, cujo roteiro se deu em dez atos: Ato nº 1, 3/7/17: Moro condena Lula à prisão; Ato nº 2, 24/1/18: TRF4 reafirma a condenação a toque de caixa; Ato nº 3, 3/4/18: Villas Bôas, comandante do Exército, tuíta ameaçando o STF; Ato nº 4, 4/4/18: STF recusa habeas-corpus a Lula; Ato nº 5, 7/4/18: Lula é levado para a sede da PF em Curitiba e passa 580 dias preso.

Ato nº 6, 22/8/18: Datafolha divulga pesquisa em que Lula, mesmo preso, aparece com 39% das intenções de voto contra 18% de Bolsonaro (no 2º turno, ganharia por 52% a 32%); Ato nº 7, 1/9/18: TSE invalida candidatura de Lula, que é substituído por Haddad (com 4% nas pesquisas); Ato nº 8, 28/10/18: Bolsonaro é eleito presidente; Ato nº 9, 2/1/19: Bolsonaro agradece aVillas Bôas: “Muito obrigado, comandante. O que nós conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

Ato nº 10, dias de hoje: revelação das mensagens trocadas entre 2014 e 2019 por Moro e membros da “Farsa a Jato” evidenciam toda a armação para barrar a candidatura de Lula e propiciar a eleição de Bolsonaro. Esta é a descrição de um golpe, o primeiro da História protagonizado por um tuíte, mas garantido por tanques e baionetas. 

O famoso tuíte do general Villas Bôas dizia: “Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem (sic) de repúdio à impunidade……, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”. 

No dia seguinte, seis dos onze ministros do STF votaram contra o habeas-corpus, uns acovardados pela ameaça, outros temerosos de confrontar o desejo da turba antipetista, submissos ao lavajatismo. 

O mais grave é que o tuíte não partiu de um general de pijamas, incapacitado e insciente, como se apresenta hoje, mas do, à época,comandante do Exército. E, como relatou em seu livro (sic), com o aval dos 15 generais quatro estrelas que integravam o Alto Comando do Exército. 

Hoje ele ocupa uma “boquinha” no GSI, comandado pelo general Augusto Heleno, o mesmo que foi afastado por Lula em 2005 do comando das tropas da missão da ONU no Haiti após ordenar o massacre de 63 haitianos em Porto Príncipe e, recentemente, criticou o Centrão cantando: “se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão”.

Centrão que hoje tem 250 deputados e 35 senadores na planilha do general e ministro Ramos e que pleiteia o Ministério da Saúde, ocupado pelo general Pazuello, responsável maior pelos 240 mil cadáveres da covid-19 gerados pela incompetência governamental.

Governo que tem como vice-presidente outro general (Mourão), que foi afastado por Dilma em 2015 do Comando Militar do Sul após homenagear o coronel torturador Brilhante Ustra.

Muito embora esses generais pertençam à geração que durante a fase sangrenta da ditadura militar eram apenas cadetes ou aspirantes a oficial, incorporaram a ideologia anticomunista forjada em West Point e ministrada na Escola das Américas (EUA), logo travestida em ressentimento antipetista. 

Desafiavam os governos Lula e Dilma questionando as investigações da Comissão da Verdade, fazendo apologia à tortura e promovendo comemorações do golpe de 1964. E hoje, 57 anos depois, promovem golpe via tuíte. 

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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