SES-DF, a ilha da fantasia

Considerada um dos gêneros literários mais aclamados na literatura, a ficção também parece ser um dos pilares da gestão do Governo do Distrito Federal. Na realidade, o Sistema Único de Saúde (SUS) da capital sofre com a falta de luvas, capotes, álcool em gel, aventais e medicamentos. Um verdadeiro caos. Mas, na história criada pela Secretaria de Saúde, “não são verídicas as informações de que as unidades da rede pública de saúde do DF estariam enfrentando desabastecimentos de insumos hospitalares”.

Os fatos: dos 14 hospitais públicos do DF, 13 estão sem estoque de pelo menos um Equipamento de Proteção Individual (EPI), indispensáveis ao trabalho de médicos, enfermeiros e auxiliares no tratamento de pacientes, em especial os que estão com covid-19. Um exemplo são as luvas, que estão faltando em pelo menos nove hospitais. Álcool em gel, por exemplo, só tinha, até sexta-feira (13), no Hospital Regional de Ceilândia. Os dados são da própria Secretaria. Porém, o secretário nega, como se estivesse em uma realidade paralela.

Segundo o gestor da pasta de Saúde do DF, o álcool em gel e os EPI estão concentrados em unidades específicas da rede, o que não significa que alguns hospitais têm e outros não dispõem desses produtos. Como assim? Essa é uma resposta enigmática, que mais parece uma tentativa de justificar o injustificável, sem esclarecer nada.

Na vida real, e não na ficção da SES-DF, se hoje, você, usuário do SUS, precisar de uma cirurgia eletiva, que não seja oncológica, cardiovascular, oftalmológica, transplante e judicializada, não terá. Foi a própria Secretaria que avisou, em circular do dia 9 deste mês: a suspensão dos procedimentos cirúrgicos eletivos foi prorrogada “até o dia 16 de novembro de 2020, visando não causar prejuízo no atendimento de pacientes graves suspeitos ou confirmados com covid-19 que necessitem de intubação para ventilação mecânica”.

E essa é apenas parte da realidade dos pacientes. Porque, na prática, apesar da circular, há cardíacos, por exemplo, que não conseguem uma cirurgia no SUS. É o caso da pequena Ana Vitória Souza Santos, agora com 7 meses, que precisa do procedimento para sobreviver. E, assim como ela, há muitos
outros pacientes aguardando na fila, durante meses, para ter acesso à saúde: basta ler ou assistir aos jornais. Sedativos e outros medicamentos necessários para esses procedimentos estão em falta.

Também na versão do governo, sobram leitos. Deu até para desativar alguns exclusivos para a covid-19, mesmo sem saber como fica o cenário diante de uma possível segunda onda. Contudo, na vida real, até quinta-feira (12), 61 pacientes aguardavam em filas para conseguir uma UTI no DF – 45 sem covid-19 e 16 com a doença. Aqui vale a pena lembrar da doação, em agosto deste ano, de 22,5 mil EPIs – esses mesmos que estão em falta agora – ao município onde o governador Ibaneis Rocha cresceu, no Piauí.

À época, assim como agora, esses EPIs também estavam em falta em algumas unidades do DF. O governador, por sua vez, chegou a dizer que não tinha conhecimento da falta de material na rede pública da capital: a ficção do GDF. E esse é o maior problema em levar a ficção à administração pública. Na prática, essa ficção é perigosa, deixa sequelas e tira vidas. Assumir a realidade, por outro lado, é o único caminho para recuperar a saúde pública e iniciar um novo capítulo no DF. Sem fantasias.

Deixe um comentário