Sartre, meu ídolo

Na crônica anterior, trouxe aqui neste cantinho de página a figura inesquecível de meu amigo Zé Keti. E, de passagem, não obstante a minha indigência de receber míseros três salários mínimos de aposentadoria pelo INSS (continuo colocando a boca no trombone à guisa de desabafo), frisei que sou um cara muito rico por ter optado pela profissão de Jornalista, graças às mil viagens que fiz pelo mundo e, sobretudo, por ter privado da presença de figuras humanas maravilhosas, a maioria sobrevivendo hoje nas páginas das enciclopédias. De um cantor e compositor de samba que nasceu num subúrbio carioca, vou diversificar para falar de um famoso filósofo francês, chamado Jean Paul Sartre, a quem entrevistei quando ele veio ao Rio de Janeiro, no final da década de 1950.

O leitor fique tranquilo porque não vou intelectualizar este texto com as teorias filosóficas sartreanas, muito menos sobre o cotejo entre Marxismo versus Existencialismo. Vou apenas falar das particularidades de um homem feio fisicamente, mas que ficava bonito quando abria a boca para defender as suas Verdades, geralmente em favor dos jovens. E não ficava só no blá-blá-blá, como os políticos atuais. Eis um dos exemplos: ficou ao lado dos seus ex-alunos da Universidade de Sorbonne, em Paris, na histórica revolta dos estudantes em 1968, centelha que quase incendiou toda a França numa nova Revolução, depois da tomada da Bastilha. Afinal, Jean Paul Sartre já se destacara como o filósofo que influenciara uma grande parcela da juventude do após-guerra, nas décadas de 1950 e 1960.

Modéstia pela parte que me toca, muito antes de entrevistá-lo, Sartre já era meu ídolo. Entre tantos sonhos frustrados, um dos quais o de estudar na Universidade de Sorbonne, localizada ali no coração do Quartier Latin. Em parte (incluindo Hemingway), a minha inspiração era sartreana. E essa idolatria se consolidou apenas num gesto que, com certeza, nenhum escritor já o fez ou teria a dignidade de fazer: ele recusou a grana milionária e a glória, ao ser contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1964! Alegou, com a sua peculiar simplicidade: não queria se submeter ao julgamento de juízes, mesmo quando premiado.

PS – Jean Paul Sartre nasceu em Paris, em 1905. Faleceu em 1980, aos 75 anos. Mas, na minha memória ele continua mais vivo do que nunca.

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