Rosilene Corrêa: “Não queremos militares atuando dentro das escolas”

O Sindicato dos Professoes iniciou, quinta-feira (17), os debates sobre a determinação do GDF de militarizar quatro escolas da rede pública de Brasília. Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro-DF, falou ao Brasília Capital sobre esta medida e as expectativas da categoria em relação a gestão Ibaneis Rocha.

Rosilene Corrêa: “A militarização das escolas não é algo novo”. Foto: Júlio Pontes

Qual a posição do Sinpro em relação à proposta de militarizar escolas públicas? – A militarização das escolas não é algo novo, embora seja a primeira vez que um governo aqui no DF tem essa infeliz ousadia. Outros estados já estão com isso. O Sinpro foi bastante solidários ao estado de Goiás nessa questão. Os alunos resistiram bravamente, mas infelizmente não foi suficiente. Hoje Goiás tem este modelo de escolas. Para nossa surpresa, o primeiro anúncio relativo à educação do governador Ibaneis Rocha foi exatamente essa história, que eles insistem em dizer que não é militarização, mas eu tenho certeza que é.

O GDF diz que é um projeto piloto em quatro escolas… – O grave nisso é que você tem uma sociedade, de modo geral, desejosa por segurança pública. Hoje, no Brasil, o ambiente é favorável a isso. O presidente da República pautou muito isso. Ele deu garantias de que iria mudar esse quadro. Na nossa avaliação, há uma inversão. Porque você não combate a violência facilitando a posse de armas, por exemplo.

Como o Sinpro vai reagir? – Nossa primeira medida foi chamar ao sindicato os professores dessas quatro escolas. Não é um problema pontual. É um problema da rede e de toda a cidade. É importante ressaltar isso. Qual a educação queremos? Não é uma educação que caiba militares atuando dentro das escolas.

Mesmo que esses militares sejam habilitados a desenvolver esse trabalho? – Não podemos cometer nenhum tipo de leviandade. A PM tem quadros muito bem formados e capacitados. Agora, a formação militar é outro modelo de escola. Não é para as nossas escolas.

Mas as escolas militares são tidas como referência… – Não são escolas-referências. São escolas de resultados. Quarteis. É nisso que nós descordamos drasticamente. Primeiro, que você não resolve o problema da violência militarizando as escolas. Se fosse assim, já teríamos muito mais colégios militares no Brasil. Ou você trata da coisa por meio de políticas públicas, que passam por investimentos efetivos na educação, ou é desonesto mostrar a diferença de um colégio militar sem tratar das condições oferecidas a este colégio.

Rosilene Corrêa: é desonesto mostrar a diferença de um colégio militar sem tratar das condições oferecidas a este colégio. Foto Júlio Pontes

Quais são as principais diferenças? – Remuneração é maior. O investimento por aluno, é o dobro do de uma escola normal. A estrutura física do colégio militar não se compara com a maioria dos que a gente tem. E aí, é claro, a questão do ambiente seguro que todos querem. A localização é outro detalhe. São escolas bem localizadas. E tem outra coisa: o perfil dos alunos. São estudantes que passam por um processo seletivo. Aquele que não atinge o padrão exigido, sai. Sendo assim, seleciona-se uma clientela. Então passa a ser privilégio pago com recurso público. É um processo excludente. Nós queremos discutir com o governo o que ele propõe para a educação, porque ainda não está claro.

Quais são as principais demandas da categoria? – São mais de 140 itens. A gente tem os eixos, e a partir disso vamos traçando as pautas.

O salário é eixo mais importante? – O eixo financeiro passa pelo auxílio-alimentação, que está sem reajuste há quatro anos. O auxílio-saúde é o mesmo valor desde 2012 (R$ 200) e não temos plano de saúde. E temos uma pendência que é a última parcela do nosso reajuste conquistado em 2012, de 3,7%. Não se trata de pagar essa pendência e resolver. Vai zerar uma dívida que o GDF tem com a categoria. O que nós queremos debater é o cumprimento da Meta 17 do Plano Distrital de Educação, que estabelece equiparar com a média de outros servidores de nível superior.

O GDF lançou o SOS Educação. O Sinpro foi ouvido? – Não. Nada nos foi apresentado. Esperamos que o governador apresente algo que dialogue com a categoria. É claro que é urgente que melhore a estrutura das escolas. É interesse nosso. É bom trabalhar num ambiente agradável. Queremos tudo de melhor: melhor merenda, recursos para as escolas, PDAF em dia, reforma das escolas, nomeação de professores, de educadores pedagógicos, enfim… Agora, precisamos lembrar que também precisamos de salário. Se o governador insistir em discutir apenas com a área da Segurança deixará claro que o governo dele será da inversão: investir em segurança para ajudar na educação.

Qual o deadline do Sinpro para iniciar uma negociação mais intensa, podendo chegar a uma greve, por exemplo? – Temos insistido no diálogo. Esse é o nosso perfil. Esperamos que o governo tenha capacidade de diálogo. Não queremos gerar desgaste para a categoria nem para os alunos. Uma greve é algo muito cruel. É chegar no limite. Chegar a este ponto é porque se está sendo desrespeitado. Governo não ganha, sindicato não ganha. Todo mundo tem a perder com uma greve. Mas a greve jamais será descartada.

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