“Rollemberg não gosta de servidor público”

“É injusto não reconhecer projetos feitos por Agnelo” Fotos: Rogaciano José

Pré-candidato ao Senado, o deputado distrital Wasny de Roure (PT) acredita que o governador Rodrigo Rollemberg não ficará isento das suspeitas de irregularidades em sua gestão, como ele tem ressaltado. Para o petista, todo governo faz o discurso da idoneidade até perder o controle do Estado. “Depois que perde esse controle é que aparecem as coisas”. Nesta entrevista ao Brasília Capital, Wasny avalia que o governador não gosta de servidor público.  “O Rollemberg não tem simpatia por servidor, porque acha que dinheiro gasto com servidor é dinheiro jogado na lata do lixo”.

 

Desde o primeiro dia de sua gestão, o governador Rodrigo Rollemberg afirma ter recebido uma herança maldita do PT. O senhor considera justa essa acusação? – Eu não posso responder por nenhum ato de violação do interesse público. Isso quem responderá serão as provas e os testemunhos de eventuais irregularidades cometidas por esse ou por aquele.

Mas o PT não deixou nada de positivo para o seu sucessor? – É injusto não reconhecer projetos como o BRT Transporte, o Programa de Creches, a Fábrica Social, o Programa de Boleiros, resgate do aeroporto com a viabilização da redução de alíquotas no querosene. Tivemos muitos projetos na área social que caracterizaram enormemente o governo Agnelo Queiroz.

Rollemberg exalta também não ter cedido ao corporativismo dos sindicatos. O governo do PT foi irresponsável nesse aspecto, concedendo aumentos sem a necessária provisão de recursos? – Convocamos de 36 mil novos servidores concursados e fizemos um processo de recuperação dos salários dos servidores públicos de uma maneira generalizada, exceto a Polícia Civil, que é paga pela União. Diante disso, cresceu-se a folha de pagamento. O governo Rollemberg, que não tem simpatia por servidor, porque acha que dinheiro gasto com servidor é dinheiro jogado na lata do lixo. Portanto, entende que os reajustes concedidos pelo Agnelo teriam desequilibrado o caixa do governo. Só que ele esquece de dizer que foi o mesmo governo Rollemberg que utilizou dos recursos previdenciários, que hoje remontam mais de R$ 5 bilhões, que fez com que ele conduzisse o seu governo.

Segundo Wasny, Agnelo entregou o fundo do Iprev com mais de R$ 2,5 bilhões. Foto: Rogaciano José

 

Foi Agnelo que criou esse fundo? – Agnelo entregou o fundo do Iprev com mais de R$ 2,5 bilhões. E o atual governador utilizou e desviou esse dinheiro para outra finalidade, que não a previdência dos servidores, principalmente, aqueles que chegaram a partir de 2007.

O governador tem dito que ele é o único dos últimos governantes que não se envolveu em escândalo. O senhor acredita que ele poderá afirmar isso quando encerrar o mandato? – Todo governo diz isso até perder o controle do Estado. Depois que perde esse controle é que aparecem as coisas. Eu, particularmente, tenho por um ele um respeito enorme quanto a esse perfil. Mas o governo não é só ele. Ele não tem o controle e não conhece o próprio governo dele. Um governo que, inclusive, imputa ao presidente do DER uma coisa que não era de responsabilidade dele para aliviar a outra. Há de indagar qual é, de fato, a seriedade desse governo.

O senhor se refere à queda do viaduto da Galeria dos Estados? – Sim. Todos sabem que o contrato e a licitação eram da Novacap. Aí tira dela para imputar a uma pessoa que tem relação de parentesco com o governador não se sabe com qual objetivo. É difícil de entender.

O senhor vê algum tipo de desrespeito na relação de Rollemberg com os servidores? – Basta ver a atitude de outros governantes do PSB com os servidores, como o Miguel Arraes e o Eduardo Campos. O trato histórico sempre foi outro, de um partido socialista. A prática de partido socialista com quem cuida do Estado é uma prática diferenciada pelo papel que o Estado tem na qualidade de vida da população e o trabalho de mitigação dos efeitos perversos com a população mais pobre.

Como o senhor classifica o tratamento do governador com os servidores?  – Dentro da visão dos capitalistas neoliberais. Basta ver os parceiros que ele tem construído. Os aliados dele dão o perfil político-ideológico que ele pretende dar ao governo. Eu não vislumbro que ele, de fato, tenha o perfil socialista.

Esse discurso de “governo limpo” será suficiente para reverter os altos índices de rejeição e reeleger Rollemberg? – Trata-se de definir que tipo de cidade nós queremos: Uma cidade para a elite ou para o povo? O que ocorreu com essa política de demolição que o Rollemberg fez, achando que estava construindo um Estado-cidadão? O que ele fez foi inchar, em várias partes do DF, aglomerados de população excluída, e que vão continuar excluídos se não houver uma política habitacional mais agressiva.

Brasília não é só a Esplanada e a W-3. Foto: Rogaciano José

Onde estão esses aglomerados de excluídos? – Basta visitar a expansão de Samambaia, ir a São Sebastião, conhecer setores do Recanto das Emas e de Santa Maria. Vamos conhecer essas áreas! As pessoas não entram em áreas onde existe mato acreditando que ali tem cobra. Mas tem é gente. Em Samambaia, tem várias áreas fechadas dentro do mato onde moram algumas centenas de famílias. Então, vamos parar de brincar com a população. Brasília não é só a Esplanada dos Ministérios e a W-3.

Qual a solução para isso – Falta uma política social. Nós vivemos em uma capital que atrai as pessoas de outros estados pelas manchetes que Brasília produz Brasil afora. A capital catalisa uma população sem perspectiva. Aqui tem escola, atendimento na saúde. Então, as pessoas vêm para Brasília. Aqui, pode-se morar gratuitamente, doa-se lote…

Rollemberg enfrentou a crise hídrica e em março vai realizar o Fórum Mundial da Água… – Essa foi uma conquista do governo Agnelo. Quem não lembra quando Agnelo foi ao exterior fazer os acordos para trazer esse evento? Rollemberg cancelou vários eventos previstos para Brasília, mas sobrou esse, pela envergadura política que isso terá no País. Portanto, este evento era porque já tinha sido trabalhado por muitos atores.

Mas será um momento importante para Brasília… – Sem dúvida. Não sou daqueles que apostam na terra arrasada. Reconheço que esse governo também enfrentou uma queda da atividade econômica. A arrecadação ficou aquém. Mas essa gestão adotou algumas políticas que alimentaram a negligência arrecadatória. Tivemos políticas de perdão de dívida fiscal que desestimula o contribuinte a recolher seus tributos.

Houve também um movimento de saída de empresas do DF… – Essa questão eu não gosto nem de falar, porque é muito triste. Desativar a atividade comercial é uma questão não só de governo local: também envolve questões econômicas no âmbito nacional. O que não existe é um movimento que contrapõe a isso. Nos últimos meses, há um esforço do secretário de Desenvolvimento Econômico, Valdir Oliveira, de tentar retomar o crescimento econômico, de fazer alguns movimentos dignos de elogios. Só que ele chegou um pouco tarde para fazer esse trabalho. Mas, antes tarde do que nunca…

O governador enviou esta semana para a Câmara o projeto de eleições diretas para administradores regionais, que era um de seus compromissos de campanha. Qual sua avaliação? – Ele está querendo tirar o brilhantismo do projeto do deputado Chico Vigilante. Acho isso muito ruim. Ele poderia ter chamado o deputado e a Câmara para uma conversa e integrado as duas proposituras. Isso seria digno de um homem público – construir pontes, entender que ele não é o único que tem uma contribuição importante para a cidade e que outros também convivem com essa problemática. Só que essa grandeza, infelizmente, ele não teve. Ele acha que o mundo se resume nele. Que a única pessoa capaz de pensar a cidade e ver saídas é ele. Isso é um lamentável equívoco.

Qual é a sua perspectiva para 2018? O que esperar de uma eleição na qual o principal candidato, que é o Lula, talvez não possa participar? – O Lula vai continuar sendo o grande eleitor nessa campanha eleitoral. Naturalmente, o momento é muito confuso e difícil para todos nós. Não há como fazer um acerto de contas de um ciclo de gestão do PT e, a partir daí, repensar o país. Não sei como se dará isso. Vai depender de como o Supremo vai decidir se acolhe ou não a candidatura do Lula no estágio em que está o processo dele. A candidatura dele chega a 40% com tranquilidade. As outras candidaturas estão estacionadas, não conseguem crescer, convencer o eleitorado.

A que o senhor atribui esse fenômeno? – É que essas outras candidaturas não conseguem ter um projeto que aponte para uma esperança. Isso é o mais duro. O Lula fez isso como presidente. Infelizmente, tivemos vários percalços que também é necessário que a gente entenda.

Quais percalços? – Por exemplo, que o mesmo poder Judiciário que é tão rigoroso no trato do processo do Lula seja tão negligente nos processos do Michel Temer, do Geddel Vieira Lima, do Moreira Franco e de muitos outros que hoje compõem a linha de frente do Palácio do Planalto.

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