Paulo Roriz, o maquinista de Ibaneis

Paulo Roriz: “Ibaneis está cumprindo o acordo com Caiado, mas me parece que ainda não teve contrapartida acertada”. Foto: Júlio Pontes

Aos 58 anos, Paulo Roriz assume pela terceira vez a Secretaria do Entorno, que comandou nos governos de seu tio, Joaquim Roriz, e de Agnelo Queiroz (PT). Rebatizada de Secretaria de Desenvolvimento da Região Metropolitana, a pasta ressurge fortalecida. Poderá intermediar negociações do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), que terá R$ 800 milhões do Banco do Brasil em 2019, e será a condutora do projeto que visa implantar o trem de passageiros ligando Brasília a Luziânia. As viagens experimentais começam em março e vão durar seis meses.

Nesta entrevista ao Brasília Capital, Paulo Roriz explica como pretende desenvolver todos os projetos, da expectativa de parcerias com o governo de Goiás e com as 35 prefeituras que integram a Região Metropolitana criada a partir de medida provisória assinada pelo ex-presidente Michel Temer e que deve ser aprovada em fevereiro no Congresso Nacional.

É a terceira vez que o senhor assume a Secretaria do Entorno. Qual a diferença das vezes anteriores para agora? – Para mim, é um prazer muito grande voltar a comandar a Secretaria do Entorno, que passou a se chamar Região Metropolitana, a partir da medida provisória do ex-presidente Michel Temer, assinada em dezembro, e que deve ser aprovada em fevereiro pelo Congresso Nacional. Sou filho de Luziânia, conheço esta região e os negócios que ali ocorrem. Meu pai foi prefeito duas vezes na época em que Valparaíso, Ocidental, Novo Gama, Céu Azul, Santo Antônio do Descoberto e Águas Lindas, faziam parte da Grande Luziânia. Meu pai foi o responsável pela emancipação desses municípios.

Quais políticas podem ser desenvolvidas para melhorar a qualidade de vida da população dos 35 municípios dessa Região Metropolitana? – O DF tem uma população de 2.5 milhões de habitantes. A Região Metropolitana, com 32 municípios de Goiás e três de Minas Gerais, tem mais de 3,5 milhões. Em média, quase 200 mil pessoas que vêm a Brasília, diariamente, utilizar os serviços públicos, trabalhar ou desenvolver suas atividades empresariais.

Que tipo de transporte elas usam?  – Cem mil pessoas vêm de ônibus, segundo dados da Codeplan. E 45 a 50 mil vêm de carro. Isso é mais de 70% dos 200 mil habitantes.

Sua Secretaria recebeu a incumbência de botar para rodar o trem entre Brasília e Luziânia. Como está isso? – Este trem ligando o DF a Luziânia é a realização de um sonho de décadas da população do Entorno. O governador esteve com o ex-ministro das Cidades, Alexandre Baldi, durante o governo de transição. Ele foi deputado federal por Goiás e já conhecia o assunto. Ibaneis mostrou a necessidade deste trem e o ministro entrou em contato com a Companhia Brasileira de Transportes Urbano e, graças a Deus, a CBTU encampou este sonho.

O equipamento será semelhante ao que se tem em João Pessoa (PB)

Qual o custo inicial? – O custo dos testes nos primeiros seis meses será de R$ 3,5 milhões. Serão três vagões transportando uma média de 200 pessoas cada. As locomotivas estão vindo de Recife. Durante estes seis meses, a CBTU vai bancar tudo. Nós não vamos entrar com nada. Nos primeiros 30 dias vai ser um teste sem passageiros, saindo da rodoviária direto para Valparaíso.

Por que Valparaíso? – Porque a malha passa dentro de Valparaiso. É a única cidade que os trilhos passam no centro da cidade. Em Luziânia e na Cidade Ocidental os trilhos passam longe do centro. Seria necessário integração e não daria para a gente executar agora. Demandaria muita logística. Eu queria colocar até o posto Ipê e o Ingá, mas existem ainda problemas de viabilidade por causa dos trilhos. As bitolas ainda não estão adequadas para o transporte de passageiros. Então, vamos construir uma estação pequena, só para embarque e desembarque do segundo mês em diante, durante cinco meses. Serão transportados 200 passageiros de Valparaíso para Brasília de manhã e voltando à tarde. Essas duas viagens significam que deixarão de rodar 14 ônibus por dia na BR-040.

A Secretaria também vai trabalhar os recursos do Fundo de Desenvolvimento do Centro-Oeste (FCO). O que significa isto? – Brasília tem hoje um montante de quase R$ 800 milhões que poderão ser geridos pelo Banco do Brasília, via FCO. Na verdade, não sou eu que vou gerir isso. Esta atribuição é da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Mas a gente vai poder trabalhar junto com os empresários, montar as políticas de empréstimos, junto ao FCO, para empresários que queiram investir no Entorno.

Paulo Roriz explica que o CBTU vai arcar com os custos durante os primeiros seis meses do trem. Foto: Júlio Pontes

Já existem interessados? – Agora mesmo tem uma empresa muito grande que fez um pedido de R$ 80 milhões para construir uma usina termoelétrica em Cristalina. Inclusive, já com 45% da obra pronta. Levei o empresário para conversar com o secretário de Desenvolvimento Econômico e o projeto já está praticamente aprovado.

Como será a parceria da Secretaria com o governo de Goiás? – O governador Ibaneis conversou com o governador Ronaldo Caiado no final do ano passado para que nós pudéssemos construir o desenvolvimento da Região Metropolitana em conjunto. Mas Goiás está com sérios problemas econômicos. Espero que até julho/agosto isso tudo entre nos eixos.

Ele decretou estado de calamidade financeira… – É verdade. Mas o que foi combinado entre os dois governadores o  Ibaneis está cumprindo. Foi criada a Secretaria da Região Metropolitana e ele nos deu total liberdade para fazermos investimentos dentro da realidade financeira do Distrito Federal e de Goiás. O que me parece é que ainda não teve a contrapartida acertada.

Outra fonte de recursos são as emendas parlamentares. Já existem conversas com os deputados e senadores de lá e de cá? – Sim. As emendas dos deputados federais e senadores são impositivas. Ou seja, o governo tem que cumprir. Cada deputado federal tem direito a R$ 18 milhões. E tem as emendas de bancada, que são quase 40 milhões. O que nós vamos tentar fazer é um intercâmbio entre os deputados e os senadores  de Goiás, Minas e DF para que eles coloquem essas emendas, pessoais e de bancada, na Secretaria da Região Metropolitana para que nós possamos investir no Entorno.

Que tipo de investimento? – Para construirmos Unidades de Pronto Atendimento (UPA’s), escolas e universidades. Para atrairmos empresários. Uma UPA evitará que muito moradores que buscam tratamento médico no DF não precisem mais sair de suas cidades. Uma universidade atenderá milhares estudantes que atualmente precisam ir para Brasília. Se os empresários investirem nessas cidades, os trabalhadores não precisarão procurar emprego no DF. Nossa ideia, basicamente, é fazer com que os empresários possam investir na Região Metropolitana.

Como será a parceria com os prefeitos dessas cidades? – Os prefeitos também terão sua contrapartida. Vamos procurar cada um deles. Sabemos também da difícil condição financeira dos municípios. Os prefeitos estão passando por dificuldade. Mas tudo vem a somar. Quando a gente apresentar um projeto aos prefeitos, e eles virem que é viável, sabemos que eles vão investir. Principalmente nos municípios maiores. São sete ou oito que representam mais de 40% do PIB do Entorno.

Qual a estrutura de pessoal da Secretaria? O senhor terá liberdade para montar sua equipe? – Estamos procurando, a pedido do governador Ibaneis, montar uma equipe de alto nível técnico, com pessoas qualificadas. Tenho a responsabilidade de indicar essas pessoas para ele aprovar os nomes.

Pretende indicar políticos? – Também. Podemos fazer um meio de campo com pessoa políticas e técnicas. Este é o perfil que estamos procurando, levando até ele os nomes para que ele aprove. Mas queremos uma Secretaria mais técnica do que política. A política já passou. Agora é hora de trabalho. Juntar as pessoas que têm expertise na região para nos ajudar.

Paulo Roriz sobre herança política da família: “Meu ídolo político sempre foi meu pai Zequinha”. Foto: Júlio Pontes

O senhor foi candidato a deputado federal e não se elegeu. Este trabalho poderá melhorar seu desempenho na próxima campanha? – Eu não queria ser candidato na eleição passada. Fiz campanha durante apenas 40 dias, a pedido de um grande amigo, para ajudar o partido e a coligação. O PSDB se coligou ao PR. Entrei para ajudar um companheiro político, mas sabíamos de nossas dificuldades. Meus 13 mil votos ajudaram a eleger essa pessoa. Eu não tenho nenhum interesse político no momento. Gosto do trabalho político, mas agora está na hora de trabalhar. A política lá na frente a gente vê.

A sua inspiração política vem mais do seu tio Joaquim ou do seu pai Zequinha Roriz? – Do meu pai. Ele me inspira mais. Me mostrou como é a vida pública e, graças a Deus, tenho 17 anos de vida pública tranquila. Isso eu devo muito a ele, um homem ponderado e de nome a zelar. Meu ídolo político sempre foi o Zequinha, duas vezes prefeito e duas vezes deputado estadual.

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