Para quem é viável o projeto de estacionamento público pago?

É fato que o trânsito nas grandes cidades se tornou um problema enorme. Observa-se isso no mundo inteiro e não menos na capital do Brasil. Mas a solução apontada pelo GDF para solucionar essa questão é, no mínimo, discutível.

O Projeto Zona Verde, de cobrança por estacionamento em áreas públicas para “estimular o uso, de forma mais eficiente dos espaços e transportes públicos” esqueceu de levar em conta que “eficiência” e “transportes públicos” são expressões incompatíveis no DF.

A ideia é criar regras para rotatividade no Plano Piloto e bolsões de estacionamento em locais próximos a terminais de transportes coletivos – estações de metrô e VLT e terminais e pontos de ônibus de maior movimento.

Registre-se que o VLT, previsto para a Copa do Mundo de 2014, não tem nem trilhos assentados. O Metrô, nos horários de rush, é insuficiente para a quantidade de usuários e tem horário restrito. Os ônibus, além de mal conservados e desconfortáveis, não respeitam os horários e desaparecem nos finais de semana. Uma espera interminável!

Além desses fatores, há que se considerar que a localização dos pontos de ônibus e estações de metrô em relação aos locais de residência das pessoas é outro problema. Tem sorte quem mora perto de um. O sistema viário de Brasília não favorece o trânsito de ônibus pelas vias secundárias – tanto no Plano Piloto, que é planejado, quanto em outras áreas do DF sem planejamento e com vias estreitas.

Um usuário de transporte público menos privilegiado teria que pagar um circular até o ponto de parada do transporte entre bairros e outro circular ao desembarcar deste. Os preços das passagens de ônibus e metrô variam de R$ 2,75 a R$ 5,50. Não é barato nem atraente, dada a qualidade dos serviços oferecidos.

Os preços das vagas de estacionamento previstas no Zona Verde serão outra facada no combalido bolso do trabalhador – que é quem vai pagar a conta. Custariam de R$ 0,50 a R$ 5 por hora. O gasto poderia variar de R$ 99 (para estacionar nos dias úteis em bolsões próximos às estações de metrô, por exemplo) a R$ 1.100 (para estacionar na Zona Central do Plano Piloto).

O fato é que o projeto foi elaborado considerada a viabilidade econômica para a empresa que implantaria e administraria o sistema. Depois da implementação, não haveria prestação de serviço, só a cobrança. Não se tem notícia de estudo de impacto nos orçamentos das famílias, ou nas atividades comerciais da cidade.

O comércio de rua teria benefício ou seria impactado negativamente? Se o impacto for negativo, como fica a oferta de empregos no comércio? E o acesso a serviços como saúde e educação, como seria afetado pela mudança?

Brasília é uma cidade setorizada, projetada e construída sob a égide do impulso desenvolvimentista dos anos 1960, em que o marco foi a implantação da indústria automobilística no País. Brasília foi construída para circulação de veículos – não tantos como existem hoje em dia, evidentemente.

Fica difícil entender um projeto como o Zona Verde enquanto se vê tantas obras viárias, como o Trevo de Triagem Norte (com mais de uma dezena de viadutos e ampliação de pistas) para acomodar o aumento do trânsito. Parece uma incoerência.

É evidente que os tempos atuais exigem adequações no projeto da cidade, mas propostas da natureza do Zona Verde devem ser apresentadas concomitantemente a um projeto de reestruturação viária e de oferta de transportes públicos, no mínimo.

Em vez de um projeto viável para quem vai ganhar com a proposta, Brasília precisa de uma proposta viável para quem vai pagar por ela.

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