O sempre jovem repórter

O saudoso jornalista e escritor Carlos Chagas, que embarcou recentemente para o Oriente Eterno, foi o melhor redator-chefe que conheci em toda a minha longa vida profissional de 70 anos no jornalismo. Passei a admirá-lo quando trabalhei às suas ordens na sucursal da revista Manchete, aqui em Brasília, não só por sua competência, mas sobretudo no trato com seus subordinados, o que evidenciava educação de berço.

Vasculhando livros nas minhas estantes de parede, o que já se tornou um hábito, acabei reencontrando o colega no generoso prefácio assinado por ele na minha coletânea de crônicasA Cidade do Medo, publicada pela Editora Thesaurus, em 1984. E eis adiante o generoso texto de CC, na íntegra, que o faço como uma das alternativas para matar as saudades:

            “Fernando Pinto é a imagem do repórter. Ou será que o repórter é a imagem do Fernando Pinto? Confundem-se classe e indivíduo, numa simbiose que desperta em nós, da velha guarda, uma pontinha de inveja; e dos jovens que se lançam na profissão, a esperança de um dia se transformarem em Fernando Pinto. O repórter, dizia Alves Pinheiro, um mestre de todos nós, é aquele que se dispõe a tudo numa Redação. Ou quase tudo. De manhã, pode estar entrevistando o presidente da República, mas, á tarde, viaja para o sertão, onde, em lombo de burro, subirá uma serra desconhecida e perigosa para encontrar, lá em cima, uma comunidade de negros, ex-escravos, desligada da civilização.

            Sem tirar nem pôr, esse é Fernando Pinto. Cresceu no RJ, onde fez seu curso universitário na Faculdade Nacional de Filosofia, conhecida como a réplica brasileira da famosa Sorbonne, de Paris. Trabalhou nos principais jornais, e nas revistas cariocas O Cruzeiroe Manchete, onde recebeu Menção Honrosa no Prêmio Esso de Jornalismo, em 1963, com a matéria “Deus Esqueceu o Nordeste”, viajando 40 dias no porão do navio Raul Soares, então pau-de-arara flutuante, encarregado de despejar de volta à região os nordestinos desiludidos com o Sul-Maravilha.

         

(*) Estou preparando um novo livro para seguir-se à Cidade do Medo, com temas que – adianto aqui – sobre as memórias de um “velho” repórter, ainda que amigos e colegas esperem convencer-me a mudar o conteúdo. Afinal, alegam eles, a verdade é que “não há no Brasil jornalista mais jovem do que você”.

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