O que as urnas nos revelaram nas eleições no DF?

O eleitor brasiliense parece não estar muito preocupado com Saúde, Educação, Segurança, Mobilidade Urbana, dentre outras necessidades do cotidiano. É isso que se pode depreender da composição das Câmaras Federal e Distrital e dos novos senadores recém-eleitos.

De maneira geral, o perfil dos parlamentares eleitos está mais associado ao debate – a favor ou contra – dos temas vinculados aos Direitos Humanos ea agenda identitária. Ícones desse debate, duas parlamentares, uma de direita e outra de esquerda, foram campeãs de votos no DF: Erika Kokay (PT) e Bia Kicis (PRP).

Érika Kokay (PT) Foto Lula Marques

Kokay defende negros, comunidade LGBTI, mulheres, indígenas, populações da periferia. Kicis é contra tudo isso e ainda defende a Escola sem Partido, porte de armas, redução da maioridade penal e outras agendas consideradas fora da pauta humanista.

Bia Kicis (PRP) Foto Reprodução Facebook

Ao contrário de eleições passadas, os representantes da Saúde e da Educação não obtiveram grande êxito. Ex-presidente do Sindicato dos Médicos, Dr. Gutemberg não conseguiu chegar a CLDF, embora com boa votação. André Lima (Rede), ex-secretário de Meio-Ambiente, também não sensibilizou os eleitores com sua plataforma de sustentabilidade.Em contrapartida, a CLDF ganha o seu primeiro distrital gay, defensor inconteste da agenda identitária: Fbio Félix (Psol).

Para Federal, Maria José Maninha (Psol), que prega a volta do Saúde em Casa e o restabelecimento da gestão pública do Hospital de Base, foi a terceira mais votada em seu partido, que teve Talita Victor, defensora da causa LGBT, como a que mais recebeu voto na coligação Psol-PCB. Augusto Carvalho (SD), político das antigas, sucumbiu. Laerte Bessa (PR), que se apresentava como o legitimo defensor das forças policiais, idem.

Poder econômico – Parte da nova composição da Câmara Federal traz em sua agenda as bases de um fundamentalismo religioso acentuado. A disputa polarizou-se num debate onde a intolerância ao modo de ser, de orar, à cor da pele, à procedência regional, prevaleceram. O peso econômico falou alto. Flávia Arruda (PR), herdeira do espólio do ex-governador José Roberto Arruda recebeu um aporte de R$2,404 e foi a mais votada.

Até 20 de setembro, Paula Belmonte (PPS), esposa do bem-sucedido advogado Luiz Felipe Belmonte, havia transferido do próprio bolso para a campanha dela R$1,951 milhão. Já Celina Leão (PP), contou com R$2.154.950 para a campanha, segundo dados lançados até 10 de setembro.

Celina Leão (PP)
Paula Belmonte (PPS) Federal. Foto: Ivo Melo

Ficaram em segundo plano os debates sobre o meio-ambiente, o risco de uma nova crise hídrica, a expansão urbana desenfreada, o sucateamento de escolas e hospitais e uma mobilidade urbana que não atende a ninguém: nem quem anda de transporte público, nem quem tem carro próprio.

O formato das eleições e a não cobertura pela grande mídia das candidaturas proporcionais camuflam as propostas que os novos eleitos irão levar ao Parlamento. É de se perguntar se as eleições para deputado distrital não teriam uma maior atenção caso fossem realizadas quando das eleições municipais no restante do país. Assim, tanto na propaganda eleitoral, quanto na mídia haveria mais espaço para o debate da agenda local.

Ficamos no escuro. Como se posicionarão os novos senadores e deputados sobre temas como a presença de agrotóxicos nos alimentos, reforma da Previdência, privatização de empresas estatais estratégicas, como a Eletrobrás? No calor das urnas, parece que isso pouco importou aos eleitores candangos.

De maneira geral, candidatos que trouxeram a público propostas concretas sobre questões do cotidiano urbano não tiveram sucesso. E aqueles que nada propuseram de concreto, mas tiveram muitos recursos para massificar seus sorrisos em jilgles bem elaborados chegaram ao pódio.

Partidos – O referencial partidário em quase nada influiu. Em eleições passadas eram comum termos bancadas partidárias de três e até quatro na CLDF ou na Câmara Federal. Desta vez, na Câmara Federal são oito de partidos diferentes. Dos 24 na CLDF, 19 são de partidos distintos. Foram priorizadas as pessoas dos candidatos como se fossem salvadores da pátria, capazes de sozinho tudo resolver. Construir um consenso vai ser trabalhoso.

Onde está Reguffe? – Como naquele jogo Onde Está Wally, o senador Reguffe (sem partido), do alto de seus 826.576 votos em 2014, se escondeu dos eleitores. Apoiou 13 candidatos a proporcional, dos quais um foi eleito. Mas se omitiu no debate do futuro da Capital e do Brasil.

Reguffe Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Não veio a público mostrar o que pensava. E não foi por falta de convite. Por pelo menos três oportunidades, a candidata do Psol, Fatima Sousa – que surpreendeu nessas eleições -, instou Reguffe a assumir seu papel de líder político.

Para alguns analistas, ele comete o mesmo erro de Marina Silva, que no pós-eleição de 2014 e no impeachment de Dilma Roussef (PT) se calou e se escondeu como avestruz, que enfia a cabeça na terra.

O resultado do comportamento de Marina, que para alguns buscava estar de bem com todos os lados, foi o fracasso nas urnas de 2018. Ela terminou em oitavo lugar, com menos de 1% dos votos, atrás de Cabo Daciolo, que dispensa comentários

O fracasso de Marina pode resultar na extinção da Rede, já que o partido não superou a cláusula de barreiras. Há quem diga que o futuro da legenda é uma fusão com o PV. E qual será o futuro de Reguffe? Vai tomar partido nas eleições de segundo turno pro GDF?

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