O que a Austrália usou para combater a seca, Brasília não tem

 

Kakadu National Park, leste de Darwin,  região a que os australianos chamam Top End. Foto: Divulgação

 

A Austrália oferece um bom exemplo ao Distrito Federal de como lidar com a seca, que indica ficar mais acentuada ainda neste ano. O país da Oceania enfrentou mais de uma década de escassez hídrica ― 2001 a 2012.  “Situações extremas têm muito mais a ver com a falta de planejamento do que com seca prolongada. É preciso ter o plano A, B, C e D, para distintas situações críticas”, afirma o pesquisador brasileiro Marlos de Souza.

Marlos acompanhou a reação dos australianos trabalhando para o governo de lá. Ele faz constatação desfavorável a todo o Brasil, não apenas em relação a Brasília. Especialmente na questão do planejamento. Explica que o sistema hídrico da Austrália é regularizado e muito bem monitorado, algo que os brasileiros estão longe de alcançar.

Transparência

E mais: o enfrentamento da questão não depende apenas das autoridades, mas é necessário o envolvimento da população cooperando com o esforço para evitar danos maiores à nação. Com um detalhe importante: as autoridades australianas priorizaram o diálogo transparente com o público.

Este canal de comunicação com todo o povo permitiu o compartilhamento da gestão da capacidade dos reservatórios em tempo real, por intermédio de monitores eletrônicos instalados em partes estratégicas das cidades. E tudo isso é possível, de acordo com Marlos, porque a seca é previsível, com o estudo das variações climáticas, que alternam intensidade e periodicidade.

Banho e limpeza

Ao mesmo tempo, explica o pesquisador, houve campanhas maciças de publicidade acentuando a urgência de toda a comunidade adotar hábitos para economizar água. Exemplos: restringir o tempo de banho a quatro minutos (que poderiam ser computados em ampulheta distribuída com a conta de água), trocar chuveiros velhos por novos com volume reduzido de vazão, limitar número de dias em que a água poderia ser usada para limpeza.

O governo australiano entrou também com ampla política de incentivos fiscais para quem quisesse substituir instalações antigas por equipamentos ecológicos que aproveitassem águas pluviais ou permitissem o reuso de água cinza. Com isso, a crise representou uma oportunidade para a economia criativa, como investimento em processos de dessalinização para produção alternativa de água.

Palestra na Adasa

O sal retirado era vendido a pecuaristas, permitindo o retorno financeiro do investimento de empresários para produção de água. Marlos de Souza esteve em Brasília no início deste mês para dar palestra aos funcionários da Agência Reguladora de Água, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa).

No final, ele sintetizou o porquê do sucesso da Austrália no combate à seca que durou uma década em cinco pontos: planejamento; transparência na comunicação com a população; educação para evitar desperdício e incentivar novos hábitos; programas governamentais específicos; e entendimento de que a crise ajuda a impulsionar novas políticas públicas, que podem representar oportunidades de crescimento econômico e adoção de práticas sustentáveis ao mesmo tempo.

Currículo

Marlos de Souza é Atual secretário da Plataforma de Águas da Organização das Nações Unidas para Agricultura (FAO), Marlos trabalhou na Austrália para o EPA (Environment Protection Authority) como o líder do programa de recursos hídricos e regulamentação de água de lastro de navios. Também foi diretor do Murray-Darling Basin Authority, uma agência de águas do governo australiano. O brasileiro é doutor em gerenciamento de recursos hídricos e pós-doutor em modelagem matemática aplicada aos recursos hídricos, conhecimentos que foram usados na gestão da alocação de água durante a seca na Austrália.

Com informações da Adasa