O porre com Vinicius, em Paris?

Contemporâneo dos então Monstros Sagrados da MPB nas inesquecíveis madrugadas do Rio de Janeiro, não constituía novidade encontrá-los nas boates da moda ou nos pianos-bar da Zona Sul carioca, principalmente dos mais assíduos, a exemplo de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Óbvio que conhecia a famosa dupla não só pela mídia, mas também ao vivo, a bem da verdade, sempre à distância e sem qualquer tipo de
intimidade. Mais de perto, reencontraria Vinicius em Salvador, por
volta de 1974, quando fui convidado para trabalhar no Jornal da Bahia,
justamente no ano em que o Poetinha (como era conhecido) protagonizou
seu badalado sétimo casamento cumprindo ritual cigano, com a modelo Gessy
Gesse, uma morena baiana de tirar o fôlego, ele com 67 anos, ela aos
37.

E esse romance explícito entre um poeta conhecido e uma bela estrela
de curvas sensuais serviria de prato cheio para a imprensa do mundo
inteiro, sempre ávida por sensacionalismo. Por sua vez, no plano da
criação artística, renderia a Vinicius três músicas dedicadas à
bem-amada. No plano concreto, a construção de uma bela casa de seis
quartos na praia de Itapoã, que viraria atração turística por ter uma
enorme sala de banho, com uma banheira que dava vista para o mar
através de uma parede de vidro.

Foi mais ou menos por essa época que apareceu na redação do JB, em
Salvador, meu saudoso amigo Paulo Reis, repórter-fotográfico da
Manchete. Algum desinformado lhe dissera que eu era íntimo do Vinicius
de Moraes e poderia intermediar uma boa entrevista para sua revista.
Na base do coleguismo, embarquei o colega no meu fusquinha e tocamos
para Itapoã.

Na mansão de Vinicius, nos informaram que ele deveria
estar bebericando num certo barzinho meio escondido, ali perto, onde
os pés das cadeiras ficavam enfiados numa areia fofa que era a
extensão da praia. Realmente o poeta estava lá, sozinho. E nos recebeu
numa boa, como era seu costume no trato com jornalistas.

Pergunta vai, resposta vem. E de repente Vinicius se dirigiu a mim:
“Lembra, FP, daquele porre que nós tomamos em Paris?” Para não
desmenti-lo, respondi que lembrava. Paulo gravou o diálogo. E saiu
publicado na Manchete. Meu currículo profissional ficou mais rico,
causando inveja a alguns coleguinhas, por um histórico privilégio do qual nunca desfrutei, infelizmente.

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