O ovo da serpente

Há 100 anos, em abril de 1920, era criado, na Alemanha, o NSDAP, sigla do que ficou conhecido como o Partido Nazista. Tratava-se de um dos vários grupelhos alemães de extrema direita inspirados no movimento Volkisch, que se declaravam antimarxistas, antissemitas, antiliberais e que repudiavam o Tratado de Versailles.

Na onda nacionalista que varreu o país após a ocupação francesa do Ruhr, em 1923, o NSDAP tentou um golpe de Estado em Munique (o fracassado putsch da cervejaria), quando ainda era um partido inexpressivo. Na eleição parlamentar de dezembro de 1924, obteve somente 3% dos votos; em 1925, na eleição presidencial, seu candidato, o general Ludendorff, teve 1,1%; e nas eleições parlamentares de 1928, o NSDAP obteve apenas 2,6% dos votos totais.

Já nas eleições parlamentares de 1930, o Partido Nazista saltou para 18,3% dos votos. O que propiciou tamanho crescimento? Nas eleições de 1928, o Partido Social Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD) obtiveram, conjuntamente, 40,5% dos votos, quase dobrando a votação obtida em 1924 (23,8%).

Ademais, o crash econômico de 1929 repercutiu violentamente na Alemanha, causando aumento exponencial do desemprego e da pobreza, resultando no aumento da mobilização da classe trabalhadora alemã e dos seus sindicatos. O medo de uma revolução socialista e a hesitação dos partidos tradicionais de direita levaram os capitalistas alemães a aportar uma enxurrada de dinheiro para o partido que, nas ruas, combatia as greves e mobilizações dos trabalhadores com suas tropas de choque (as AS, de Ernest Rohm).

Foram os milhões de marcos da burguesia alemã que fizeram o NSDAP saltar de 800 mil votos em 1928 para 6,4 milhões em 1930. Quem financiou os nazistas e “chocou o ovo da serpente” foram, segundo diversas fontes, corporações bem conhecidas como Deutsche Bank, Thyssen, Krupp, Bosch, BMW, Daimler-Benz, Audi, Hugo Boss, Siemens, Bayer, Basf, além de subsidiárias da Nestlé, Ford, GE, Philips, IBM, que ajudaram de diversas formas os nazistas a fazerem o “jogo sujo” e exterminar os sindicatos e os partidos de esquerda.

Nas eleições de novembro de 1932, o NSDAP cresceu para 33% dos votos, mas ainda menor que a votação conjunta do SPD/KPD (37,5%), levando a burguesia alemã a pressionar o presidente Hindenburg a entregar o poder a Hitler, em janeiro de 1933. O resultado todos conhecem.

Em qualquer nação do planeta o projeto inicial da classe dominante é governar de forma “civilizada”, mas, se ameaçada for em seus privilégios, não tem escrúpulos em recorrer à barbárie. No Brasil, guardada a devida dimensão, o projeto “Bolsonaro” da burguesia vai nesta linha: desacreditar os sindicatos, criminalizar os movimentos sociais, extirpar os direitos trabalhistas e sociais e sangrar a democracia.

Espera-se que os partidos de esquerda e centro-esquerda entendam o que está em jogo e acertem suas arestas, antes que seja tarde.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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