O lado oculto da arte

Ou poderia ser, também, o lado cult do cárcere…

No majestoso Teatro Nacional de Brasília, a chegada dos artistas foge ao tradicional alvoroço dos fãs e curiosos atrás de nomes famosos. Eles chegam silenciosos. O desfile é triste. Algemados e escoltados, os artistas descem de um camburão e se dirigem aos bastidores da sala Martins Penna, onde se apresentarão. No anonimato, esse grupo de 50 presidiários foi selecionado entre mais de 450 concorrentes em suas respectivas artes, para disputar prêmios nas categorias artesanato, dança, desenho, música, poesia e teatro.
O auditório, com capacidade para 500 lugares, estava lotado. O público aguarda pelo show que pela segunda vez em nove anos será apresentado fora do presídio da Papuda. Ali estão familiares, ansiosos por ver seus filhos, pais, irmãos, maridos, esposas, namorados… Alunos da rede pública prestigiam o espetáculo, incentivando quem busca, também pela arte, retorno ao convívio social.
Maria Eduarda (nome fictício), de apenas 15 anos, viajou 10 horas desde o interior de Tocantins para ver o show e, quem sabe, Adrian, o pai de sua filha de dois aninhos. Ele foi preso acusado de estupro. “Não foi”, diz ela, carinha de adolescente, ainda revelando indignação com quem denunciou seu amante, dois anos atrás, cujo nome ela não revela. “Fiquei com ele porque quis, por amor, quando eu tinha 13 anos”, garante. Sua palavra não convenceu o juiz, pois, entre os amantes há uma diferença de 40 anos e a justificativa de estupro foi aceita na sentença final: duas décadas de prisão para Adrian. Ele é um artista de óleo sobre tela, já com exposições no exterior, que lhe garantem uma pequena renda, entregue à jovem para a criação da filha que ele viu uma única vez.

O circo
A luz da plateia se apaga e ilumina-se o palco. Vai começar o “Circo”, tema do IX Festival de Arte e Cultura do Sistema Prisional do Distrito Federal (Fest´Art), escolhido pelos professores da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap). Com música característica dos espetáculos de picadeiro, os apresentadores anunciam “o maior espetáculo da terra”, ironicamente com artistas sem liberdade. Eles estão nos camarins, algemados. Suas mãos ficam livres só no momento da apresentação. Depois dos aplausos e dos prêmios, eles agradecem e retornam aos bastidores. Nesse trajeto silencioso seus olhares revelam a sensação triste de terem sentido o prazer de fugaz liberdade.
“Mundo de sonho que traz lembranças…
Do que na infância eu pude ver
Desperta em nós uma criança
Que não podemos deixar morrer”
Esta é uma estrofe de “Aurora Mágica”, inspiração de Francivaldo Santos Araújo, segundo colocado no concurso de poesias. Depois dos aplausos, um rápido agradecimento aos professores: “Que Deus abençoe a todos”. Na verdade, é uma manifestação comum dos presidiários-artistas. Eles estão ali como resultado de um projeto do governo que coloca professores da rede pública à disposição dos presos, orientando-os na educação em geral.
“O Fest’Art visa propiciar, estimular e valorizar a criatividade, a produção artística e intelectual das pessoas privadas de liberdade para a construção de um sujeito independente e criativo”, explicou Roseli Araújo Batista. Ela tem na biblioteca do presídio da Papuda o ambiente motivador desses alunos especiais.

O início
O Fest´Art é uma iniciativa da Funap-DF, organizado pela Direção Social e Educacional da instituição, com o apoio da Secretaria de Segurança Pública e da Subsecretaria do Sistema Prisional do Distrito Federal.
Em 2004 foi realizado um evento artístico cultural no Centro de Internamento e Reeducação (CIR/Papuda) que deu origem ao Fest’Art com o tema “Tô voltando”, para os trabalhos de pintura e artesanato e “Copa do Mundo de Futebol da Alemanha 2006” para música e poesia.
Evaldo César Coutinho é um desses professores que trabalha na Papuda. A conversa com os presidiários é aberta, franca. “É preciso motivá-los para participarem do ensino, da educação para facilitar a ressocialização”. Aos que chegam à “cela de aula” Evaldo recebe com uma mensagem que os coloca a pensar sobre a nova realidade: “hoje é o primeiro dia do resto de suas vidas”.

O circo acabou
No silêncio dos camarins, Adrian, o artista das telas, é chamado por um policial. Cabeça baixa, mãos algemadas à frente do corpo, ele se dirige a uma pequena sala, sem saber o que lhe aguarda. Numa negociação com diretores e seguranças do presídio, professores conseguiram que Adrian tivesse um encontro com Maria Eduarda, a jovem que veio de Tocantins. O inesperado encontro foi emocionante. E por alguns minutos Adrian abraçou a mulher e a filha. E, mesmo com as algemas limitando seus movimentos, ele pode sentir o prazer do reencontro de uma família. “Que surpresa!”, revelou, ainda chorando.
Dali ouvia-se o aplauso da plateia aos vencedores dos concursos que, um a um, era abraçado por seus familiares. Aos poucos, o amplo palco ficava vazio, enquanto os artistas retornavam à rotina do presídio na esperança de, um dia, se exibirem em liberdade plena.
Nesta realidade, faz sentido o questionamento da advogada mineira Julia Sulz, apresentado ao final de seu curso de Direito – “O trabalho do encarcerado”. Afinal, “será mesmo possível preparar pessoas para a vida em liberdade através de um sistema de confinamento?”.

José Cruz

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