O estresse das férias

          Depois de um ano de trabalho estressante, um período de descanso à beira-mar é o sonho de consumo de boa parte dos habitantes dessas paragens secas do Cerrado, a savana brasileira. Quem não carrega em seu rosário de fantasias as imagens de mulheres estonteantes, em biquines sumários, pele bronzeada, a água do mar a lhes banhar, a areia branquinha como passarela, o toc-toc do caranguejo e a velha e boa loirinha suada para refrescar o calor?

Tudo isso mostrado na TV e contado nos cadernos de Turismo dos jornais e revistas tem jeito de paraíso. O brilho do sol, o glamour dos voos de parapente ou asa delta, os passeios de Bugue ou de Toyota 4X4, as aventuras em jangadas ou em barcos mais sofisticados são verdadeiras delícias. Mas o sabor começa ficar um pouco amargo quando os personagens desse filme da vida real somos nós mesmos.

Por que saímos de Brasília para descansar em terras distantes? Muita gente responderia que precisa fugir do transporte público caótico, do trânsito e dos engarrafamentos diários. Existem também aqueles temerosos pela onda de violência que assola o Distrito Federal. E ainda outros determinados a se afastar do alto custo de vida da cidade-sede dos Poderes da República.

Aí, o sujeito revisa o carro, arruma as malas, reúne a família e põe o pé na estrada. Digamos, por exemplo, que sua escolha seja por passar uns dias em Fortaleza, a badalada capital do Ceará. Isto significa um percurso de 2,2 mil Km de ida e outros 2,2 mil Km de volta, além dos passeios que fará por lá.

A primeira recomendação é que reze muito para não sofrer algum revés no percurso. Afinal, além de mal conservadas, nossas estradas, embora estejam em melhores condições do que em anos anteriores, estão tomadas por condutores despreparados e irresponsáveis, ao volante de carros de passeio, ônibus, caminhões e motocicletas, sem distinção. E cometem as mais impensáveis infrações, raramente flagradas pelos agentes da lei.

O segundo conselho é para que esqueça o projeto de descansar do trânsito caótico e da paranóia da violência urbana. Fortaleza, assim como todas as capitais brasileiras, está tomada por carros guiados por barbeiros apressados e pela bandidagem. Já o custo de vida nas cidades praianas talvez seja até mais alto do que o nosso. Lá, o turista é visto como um milionário, cujo cartão de crédito e o cheque não têm limite. Cada conta nas barracas de praia ou nos restaurantes é um assalto à mão desarmada.

Mas, digamos que a opção seja pela viagem de avião. O inferno começa na chegada ao nosso aeroporto e nos voos, os mais esdrúxulos que se possa imaginar. As companhias aéreas oferecem opções para Fortaleza com escalas ou conexões em Manaus, São Luís e São Paulo, transformando uma viagem de pouco mais de duas horas numa maratona de oito ou dez horas em bancos apertados e com direito, apenas, a água. E olhe lá! E tem coisa muito pior, creiam, para localidades mais distantes.

Ninguém merece trabalhar um ano inteiro sem usufruir de um justo período de férias. Mas transformar esses poucos dias em sofrimento convertido numa dívida no cartão de crédito que o acompanhará ao longo dos meses seguintes pode aumentar em vez de reduzir o estresse. Então, o mais prudente é fazer uma viagem programada, comprando antecipadamente as passagens, fazendo as reservas de hotéis e encarar com bom humor o sofrimento do calor, da areia e da água salgada do mar.

E viva as morenas bronzeadas e as loiras suadas. Tim-tim, com o toc-toc do caranguejo.

 

Orlando Pontes

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