O despontar de um novo mercado

A pandemia da covid-19 tem causado desemprego no mundo. No Distrito Federal, o número de desempregados nos últimos 3 meses, segundo a Codeplan, saltou de 313 mil para 333 mil pessoas desde que o isolamento social foi adotado, em março.

Mas o segmento do ciclismo não tem do que reclamar. A bicicleta é a melhor opção de transporte – além de andar a pé – para evitar o contágio pelo novo coronavírus. A redução de circulação de veículos movidos a combustíveis fósseis também reduziu a emissão de gases que provocam o efeito estufa e aumentam o aquecimento global.

Vários setores sofreram um baque com a queda do consumo. No mercado de bicicletas ocorreu o contrário. Aumentou as vendas no Brasil e em muitos países, sobretudo na Europa, de onde têm vindo os exemplos de incentivo ao uso de bicicletas.

De um lado, a pandemia destruiu algumas formas tradicionais de ganhar dinheiro; de outro, deu alternativas a serem desbravadas. Mobilidade, lazer, turismo, esporte e saúde são alguns dos pontos fortes que põe a bicicleta como novo investimento. A prova são os entregadores, que têm trabalhado como nunca no isolamento social no mundo.

Produtos e serviços associados às bicicletas são os negócios mais utilizados e beneficiados com investimentos. Outra forma de explorar o comércio de bicicletas são as vendas, aluguéis, manutenção de equipamentos, serviços de turismo e lazer, mídia, assessorias esportivas, nutricionais, clínicas médicas para avaliação, etc.

André Pontes, professor de educação física, ciclista profissional e comerciante de bicicletas.

“Todos esses setores (e outros) podem se beneficiar da ascensão do uso da bicicleta”, assegura André Pontes, professor de educação física, ciclista profissional e comerciante de bicicletas. Há um ano, ele reside em João Pessoa, Paraíba, mas nasceu e viveu em Brasília. “Vim para cá pela oportunidade de negócios e por um sonho pessoal de viver na praia”, afirma.

Tendência mundial

A bicicleta é uma tendência mundial como solução para a mobilidade. Os países desenvolvidos a adotaram como meio de transporte. Na contramão do mundo, está a América Latina. Apenas El Salvador e Colômbia dão sinais de evolução. Argentina e Venezuela tinham boas políticas, mas, com a ascensão de empresários neoliberais ao Poder Executivo, tudo foi desestruturado.

“No Brasil não existe nada”, afirma André Pontes. Ele diz que tem a péssima sensação de que o Brasil está fora do mundo porque vai na contramão de tudo. “Bicicleta é uma questão de saúde pública”, crava. De fato, a área médica provou que andar de bicicleta, até para ir ao trabalho, diminui estresse de trânsito, poluição, obesidade e melhora a saúde mental.

Em países seguidores dos tratados internacionais de redução de gases, a ciência provou que o uso da bicicleta reduz a poluição e seus efeitos no meio ambiente, estimula melhoria da saúde pública e do trânsito de veículos.

“Mas as pessoas não percebem que é muito mais rápido e eficiente se deslocar de bicicleta do que de automóvel ou de transporte coletivo. Brasília é um caso à parte por causa das grandes distâncias entre o trabalho e a residência”, afirma.

Nova filosofia econômica

Já se nota uma mudança na filosofia de vida no mundo. O aumento das vendas de bicicleta é um dos sinais da transformação. Inglaterra, França, Itália, Alemanha mostram que o consumo de componentes e de bicicletas aumentou. O setor não foi afetado pela crise da pandemia.

Ao contrário. Em Roma, a prefeitura aumentou o número de ciclovias e alargou as existentes. Em Milão, foco europeu da covid-19, a prefeitura investiu no estímulo ao uso de bicicletas e em infraestrutura. O mesmo ocorre em Londres, Bruxelas, Alemanha e França.

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Gustavo Souto Maior, professor de gestão ambiental da Universidade de Brasília (UnB).

“Não basta dizer que as pessoas devem pedalar se não oferecer uma estrutura adequada ao uso da bicicleta. Tem de ter ciclovias, educação para os motoristas. Ou seja, existe uma energia em todo o mundo em se estimular o uso de bicicletas”, afirma Gustavo Souto Maior, professor de gestão ambiental da Universidade de Brasília (UnB).

Aulas de ciclismo

André Pontes diz que as bicicletas assistidas (com motor elétrico integrado) oferecem conforto com menos esforço e pessoas podem se locomover sem transpirar. Ele integra uma assessoria de treinamento.

“Prescrevo planilhas de treinamento on-line para o Brasil inteiro e ministro aulas presenciais de ciclismo. Vislumbro novas oportunidades de negócios para atender à crescente demanda. Há mercado para todos os tipos de clientes e empresários”, afirma.

Vantagens – Uma das vantagens nesse negócio é a tendência mundial. Se a pessoa tiver bem posicionada, terá uma boa competitividade. Além de ser a oportunidade de trabalhar se divertindo. Ganhos com Internet são ilimitados, mas tem de saber o que está fazendo e um plano de longo prazo.
“É um negócio como outro qualquer. É preciso aproveitar oportunidades e se adaptar quando necessário”, diz. Apaixonado pelo que faz, Pontes diz que qualquer coisa é vantagem quando se trata de bicicleta.

Professor se inspira em Copenhague e vira ciclista

Gustavo Souto Maior (foto), professor de gestão ambiental da Universidade de Brasília (UnB), atua na pesquisa para a melhoria da mobilidade no DF e diz que a mudança de filosofia econômica e no consumo é realidade nos países civilizados. A bicicleta virou tema de sua pesquisa acadêmica e estilo de vida após uma viagem a Copenhague, em 2009, para a Conferência do Clima.

“A cidade estava entupida de gente, mais de 180 países, não tinha vaga em hotel e não havia congestionamento. Nos 15 dias que estive lá, me surpreendi com a mobilidade: não havia fila em comércio e a população se deslocava de bicicleta ou a pé. Era inverno e vi executivos com ternos e malas caras e senhoras com sapato alto de bicicleta no centro da cidade”, relata.

A população se deslocava de transporte público, ônibus, metrô e trem e todos esses modais adaptados para levar bicicletas. “No metrô há vagões só para ciclistas, com local para colocar a bicicleta. No trem e nos ônibus, a mesma coisa”, diz. Na prefeitura de Copenhague descobriu por que a população com a maior renda per capita do mundo andava de bicicleta, transporte coletivo e a pé.

O governo cobra impostos altos de quem compra um carro. Investe em mobilidade sustentável e distribuição de renda. Ao ver isso, Gustavo passou a pesquisar e a alargar o seu horizonte na gestão ambiental. “Comecei a estudar e resolvi pedalar. Tinha 25 anos que não usava uma bicicleta. Comprei uma. Hoje, com 65 anos, sou ciclista inveterado e premiado”, declara.

Na pandemia, países exortam uso da bike

Itália: paga um bônus de 500 euros para a compra de bicicletas e construiu ciclovias no país.
Reino Unido: investiu mais de 2 bilhões de libras em infraestrutura cicloviária.
Bélgica: investiu meio milhão de euros na redução da velocidade máxima no centro de Bruxelas, priorizou pedestres e ciclistas, transformou 40 km de pistas de carros e estacionamentos em ciclovias.
França e Alemanha: criaram ciclofaixas urbanas. Paris: 650 km de ciclovia.
Noruega: Oslo proibiu veículos no centro da cidade.
Holanda: 35 mil km de ciclovias. Amsterdã: 65% dos habitantes pedalam todos os dias.
EUA: em Nova Iorque, lojas e oficinas de bicicletas consideradas serviços essenciais. As citybikes são oferecidas gratuitamente a profissionais de saúde.
Colômbia: 76 km de ciclofaixas móveis (abrem e fecham todos os dias) em Bogotá. Reduziu em 42% o uso do transporte público e as aglomerações.

Presente e futuro em duas rodas

O Governo do Distrito Federal está obrigado, desde segunda-feira (15), a instalar uma série de equipamentos na Rodoviária do Plano Piloto para melhor servir aos usuários de bicicletas. Uma liminar capitaneada pelo Ministério Público do DF e Territórios, a partir de uma série de reclamações de usuários de bicicletas, foi deferida pelo juiz Carlos Frederico Maroja de Medeiros. O número do processo é 703440-39.2020.8.07.0018.

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