O concerto das monstrópoles

Cristovam Buarque (*)

 

O Brasil tem graves problemas, nenhum tão difícil de resolver quanto consertar nossas grandes cidades: insegurança, inundações, vidas perdidas na lentidão ou nos acidentes de trânsito, soterramentos, assassinatos, assaltos e sequestros, pobreza, drogas e condomínios cercados. Durante algumas décadas, por ações ou omissões, tudo foi feito para induzir a uma migração rápida, do campo para a cidade, como símbolo de progresso. Não seguramos os habitantes no campo porque não distribuímos terra aos lavradores, nem fizemos escolas e serviços médicos para suas famílias; e criamos um forte atrativo para as cidades por causa da industrialização e da construção civil.

Fizemos urbanização apressada, asfaltamos ruas e construímos casas onde não deveríamos, desorganizamos o espaço urbano, degradamos os serviços públicos e entregamos a cidade aos automóveis. As doenças e deformações de nossas cidades permitem chamá-las de monstrópoles, em vez de metrópoles. Ao percebermos o desastre, passamos a buscar soluções na engenharia dos viadutos, das estradas, dos estacionamentos, roubando espaço e patrimônio.

Ainda não percebemos que o problema é menos de engenharia para corrigir o desastre em cada cidade, do que de política para reorientar o projeto de desenvolvimento nacional. Menos do que o conserto de cada cidade é preciso um concerto nacional para reorganizar a distribuição demográfica no território nacional. Não percebemos que qualquer solução para melhorar as cidades grandes passará pela melhoria das condições oferecidas nas cidades pequenas e médias. E que a solução vai exigir uma “desmigração voluntária” da população dessas cidades grandes para cidades de porte médio ou pequeno.

No governo do Distrito Federal, entre 1995 e 1998, houve uma pequena, mas bem sucedida experiência de “desmigração voluntária”, com pagamento de salário por seis meses para incentivar o retorno de moradores às cidades de onde tinham emigrado. O custo de pagar um salário por algum tempo a uma família “desmigrada” era menor do que o custo da assistência social que ela necessitava; a reintegração na sua origem trazia mais conforto do que a exclusão em que estava na cidade sem condições para realizar a inclusão plena.

Lamentavelmente, a “desmigração” exigia investimentos sociais nas cidades para onde as famílias voltavam, e isso dependia do governo federal, no plano nacional. Este ano de eleições presidenciais seria um momento oportuno para que algum candidato, ou todos eles, se manifeste sobre o grave problema das nossas cidades, indo além da engenharia e da demagogia, assumindo que as cidades grandes não têm mais conserto e que é melhor e mais barato investir para que as pessoas possam viver bem nas cidades pequenas e médias do que manter o custo social e econômico nas monstrópoles. E para sair de monstrópoles para metrópoles não bastam consertos locais de engenharia. É preciso um concerto nacional na política.

(*) Professor da UnB e senador pelo PDT-DF

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