O batismo de um foca

A cidade não passava ainda de um projeto que poucos acreditavam e muitos até debochavam, quando foi oficiada a 1ª Missa de Brasília, em 3 de maio de 1957, pelo cardeal de São Paulo, Dom Carlos de Vasconcelos Motta. Sob uma enorme cruz de madeira fincada no descampado de terra vermelha, uma seleta platéia de brasileiros, recém-chegados dos quatro cantos do País, ornamentava o histórico cenário.

E entre aqueles pioneiros da primeira hora, um jovem foca de um jornal pernambucano, chamado Adirson Vasconcelos, testemunhava o evento, mal contendo a emoção de repórter novato. Ao mesmo tempo, documentava num enorme e obsoleto gravador os subsídios essenciais ao texto de sua reportagem, inclusive as palavras do presidente JK: “Este é o batismo espiritual da construção da nova Capital do Brasil!”

Sem que Adirson soubesse, aquele batismo espiritual lhe era extensivo. Basta lembrar que chegara à véspera, cumprindo a maratona aérea Recife-Rio-Goiânia, somada a 12 horas de solavancos em estrada de terra esburacada, até a Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante). Ali, dormiu encolhido no banco dianteiro de uma “jardineira”, porque não encontrou vaga nos hotéis de madeira.

Sua pauta era cobrir jornalisticamente a 1ª Missa e em seguida retornar à cidade do Recife. Mas três fatos encadeados tramavam o contrário: roubaram-lhe a linda valise de couro, com suas melhores roupas; foi ofuscado por uma luminosidade que, acredita, veio do céu; e, o mais importante: se apaixonou perdidamente por uma cidade que, de beleza visual, só tinha mesmo esqueletos de cimento armado.

Hoje, 55 anos depois, se na época o foca não voltou, garanto que não voltará nunca mais. Simplesmente porque é um dos patrimônios da Capital. Adirson afirma que ainda não se considera realizado, não obstante já tenha plantado muitas árvores, gerado 7 bonitos filhos (todos brasilienses) e escrito nada menos de 40 livros. E quem quiser conhecer Brasília, por favor, leia Adirson Vasconcelos. Humilde, apesar de três diplomas universitários, ele continua semeando cultura para o usofruto de todos nós, legítimos candangos.

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