Narcos para concurseiros

Talvez você já tenha assistido às três temporadas do seriado Narcos. Se não, farei um breve spoiler: para combater o cartel de Medellín (liderado pelo icônico Pablo Escobar), um dos integrantes do DEA (agência americana de combate ao narcotráfico), Javier Peña, aliou-se secretamente ao Cartel de Cáli. Após a morte de Escobar, os americanos se viram diante de um problema maior: o Cartel de Cáli estava traficando uma quantidade ainda maior de drogas para os EUA. Um novo embate foi travado, a fim de combater a nova organização criminosa.

Agora, você talvez esteja se perguntando: o que isso tem a ver com a minha trajetória de futuro concursado?

Há uma mensagem clara no seriado: quando se busca alianças escusas, os resultados esperados podem até ser alcançados. Todavia, há consequências inevitáveis futuras, capazes de colocar antigos aliados em um confronto direto e ainda mais doloroso. Você ainda não consegue ver como isso se encaixa na sua vida?

Passar em um concurso público não é tarefa fácil ou barata. São necessários muitos investimentos. No entanto, muitos concurseiros, numa atitude aparentemente esperta, buscam aliados ilegais: os rateios de cursos online. Quero que você conheça quem está do outro lado do computador, sempre que você opta por essa via: uma organização criminosa (não só em relação a direitos autorais), que, por meio de sites e vários perfis falsos em redes sociais, já (hipoteticamente) arrecadou cifras milionárias (e não estou sendo hiperbólico). E onde você acha que esse dinheiro vai parar?

Futuramente, pode ser que você seja um policial. Investigará diversos crimes patrocinados por dinheiro ilegal. Pode ser que você seja um fiscal da Receita Federal e se depare com um rombo absurdo em relação a arrecadação de impostos. Pode ser que você seja um professor estadual, e tenha de conviver com a precariedade do serviço público e com a justificativa governamental de que mais investimentos não são possíveis porque o Estado não arrecadou o suficiente.

Talvez, a sua contribuição para essa triste realidade seja maior do que você imagina, infelizmente. A ideia de “alcançar um objetivo, independentemente dos meios adotados” é o que fez nosso Brasil chegar ao ponto em que estamos.

Ademais, veja outras situações:

  • Quem participa do comércio por rateio comete crime (tanto quem vende quanto quem compra);
  • É exigida de um servidor público uma conduta ilibada. Qualquer mácula pode custar o cargo alcançado.
  • As organizações de rateio dependem de uma fonte para sobreviverem: as empresas que, honestamente, trabalham com produção de cursos. E se a fonte secar? Nenhuma empresa sobrevive ao roubo diário.
  • Você provavelmente conhece alguém que possui um HD externo com vários GB de material ilegal para concursos públicos. Com certeza, essa pessoa não estudou todo esse material. Aquele volume absurdo de conteúdo é apenas um consolo para o fracasso. Ter muitos materiais não é o mesmo que conhecer todos eles. Para essa pessoa, lá no fundo, aquilo tudo não tem valor algum. Quem gasta valoriza o bem adquirido.

Desde cedo, aprendi que não posso ter tudo aquilo que quero. Se eu tenho um grande sonho, devo batalhar para alcançá-lo. “O que vem fácil, vai fácil”. E o sabor da vitória só é completo quando posso olhar para trás e sentir orgulho do que fiz e sou.

Peço perdão aos que esperavam ler, hoje, algo sobre Língua Portuguesa. Mas quem me conhece sabe que, para mim, a educação é a única forma de construirmos uma sociedade melhor.

Este artigo não é um instrumento de defesa dos meus interesses. Por meio dele, exponho a triste realidade que ameaça empresas (concorrentes ou não) e centenas de empregos diretos e indiretos. Mas, sobretudo, exponho um comportamento que ameaça o meu país.

Se você quer ser um servidor público, aprenda, antes da sua nomeação, a respeitar e defender seus pares, pois é para eles que você vai trabalhar. Se você quer um Brasil melhor, tenha dignidade em seus atos. Não seja mais um “sujo falando do mal lavado”.

Crimes grandes – como narcotráfico e corrupção – nos enojam. Contudo, saiba: o cerne deles está nos delitos considerados pequenos.}

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