Não chores, Argentina!

Poderia escrever esta coluna falando sobre a covid-19, que ultrapassou os 60 milhões de infectados no mundo (6 milhões no Brasil) e cujo número de mortos se aproxima de 1,5 milhão no planeta (170 mil aqui). Poderia falar do brutal assassinato de Beto Freitas, em Porto Alegre, e da reação estúpida do Presidente e de seu vice afirmando que não há racismo no País. Poderia falar da situação esdrúxula da maior potência mundial ainda não ter encerrado a apuração dos votos quase um mês após o pleito.

Poderia também falar que o IBGE apurou que mais de 20 milhões de brasileiros estão desempregados e outros 30 milhões “se viram” em empregos precários. Poderia falar que a inflação “dos pobres” (IPCA-alimentos) aumentou 15,02% nos últimos 12 meses e que no mesmo período o IGP-M aumentou incríveis 24,25%. Poderia lembrar que 15 milhões de brasileiros hoje passam fome. Poderia falar que os ricaços não estão nem aí para as consequências da crise econômica no quadro social, que o índice da Bolsa/SP avançou 17,1% em novembro e que a fortuna de Elon Musk, o dono da Tesla e segundo homem mais rico do mundo, cresceu US$ 23 bilhões desde agosto último, alcançando US$ 128 bilhões.

São muitos temas importantes que poderiam ser abordados, mas vou falar aqui da vida e da morte de uma das principais personalidades de nosso tempo: Diego Armando Maradona. Tal qual o tango, ritmo milongueiro tipicamente argentino, Diego teve uma vida turbulenta, atormentada pelas drogas e pelo álcool. Nada que reduzisse sua genialidade com a pelota e sua assertividade com a palavra. Os gols contra a Inglaterra na Copa de 1986 lavaram a alma de milhões de argentinos, impotentes para retomar as ilhas Malvinas – ocupadas pelos britânicos desde 1833 – na guerra de 1982.

Suas denúncias dos desmandos e corrupção que se perpetravam na FIFA e na AFA; suas críticas às ditaduras militares latino-americanas; suas ácidas censuras ao descaso das elites em relação às agruras do povo lembram outro notável esportista, o boxeador Muhammad Ali, que se recusou a integrar o exército norte-americano na Guerra do Vietnã, afirmando que “os meus inimigos não estão entre o povo ‘marrom’ e pobre do Vietnam, mas aqui nos EUA: são os senhores brancos que humilham os negros e dominam os povos de cor mais escura mundo afora”.

Maradona foi um gênio da bola e um herói do povo. Morreu em 25 de novembro, inusitadamente o dia da morte de seu ídolo e admirador Fidel Castro, que teve em Che Guevara outro grande parceiro argentino. Antes que os capachos da elite reacionária reajam à menção a Cuba, finalizo lembrando que a covid-19 infectou 7,95 mil cubanos e matou 133. Deve ser mesmo “insuportável” viver num país que, sob feroz boicote econômico há 60 anos, ostenta excelência em saúde pública, analfabetismo zero e baixíssima taxa de desemprego. Adiós Pibe!

(*) Doutor em Desenvolvimento Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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