Mulher que disse ter sido estuprada em réveillon vira ré por falsa denúncia

 
Sede do Ministério Público do Distrito Federal localizada no Eixo Monumental, Praça do Buriti, Lote 2 (Foto: Ricardo Moreira / G1)
Sede do Ministério Público do DF, no Eixo Monumental, em Brasília (Foto: Ricardo Moreira/G1)

 

A Justiça do Distrito Federal acatou denúncia contra uma estudante da Universidade de Brasília(UnB) de 24 anos, acusada pelo Ministério Público de forjar um relato de estupro contra o segurança de uma festa de réveillon, no início deste ano. Com isso, ela se torna ré em uma ação criminal e pode ser condenada a até oito anos de prisão.

Segundo o MP, o inquérito policial não identificou provas de que o estupro tenha acontecido, de fato. A história relatada pela suposta vítima também não tinha “coexistência harmônia” com os demais elementos da investigação, “quiçá com a narrativa apresentada pelas testemunhas”.

O estupro teria acontecido durante a festa de réveillon “The Box” no clube Acadêmicos da Asa Norte, no fim de 2015. O boletim de ocorrência foi registrado na tarde de 1º de janeiro na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, na Asa Sul.

A estudante passou por perícia no Instituto Médico Legal (IML) e foi encaminhada ao pronto socorro do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), na Asa Sul. Em fevereiro, a Polícia Civil descartou a acusação contra o segurança por “ausência de indícios suficientes de materialidade”.

Com o recebimento da denúncia pela Justiça, a mulher vai responder por “denunciação caluniosa”, crime cuja pena varia de 2 a 8 anos de prisão. A estudante terá dez dias para apresentar defesa, e o MP pode convocar cinco testemunhas para depor e acompanhar o processo.

 

Apuração
O segurança acusado de estuprar a jovem deu depoimento à polícia, na época, e confirmou que teve relações sexuais com a jovem. Segundo ele, o ato foi consensual.

Ao arquivar a denúncia, em fevereiro, a Polícia Civil afirmou que a versão do homem foi confirmada por outras testemunhas.

“Elas informaram que houve um prévio envolvimento entre as partes ainda dentro da festa e que ambos saíram da festa de mãos dadas”, disse a corporação, em nota.  A jovem passou por exames, que não apontaram “incapacidade de reação”.

No perfil pessoal em uma rede social, ela afirmou que estava com os amigos quando foi conduzida por um segurança para fora da festa, onde foi estuprada entre os carros estacionados. No relato, mulher diz que retornou à festa depois do estupro para reencontrar os amigos e que foi embora com eles apenas na manhã seguinte.

“Eu fui estuprada por quem deveria assegurar minha segurança. Eu tive medo, não reagi (poderia ter sido pior se reagisse, eu poderia apanhar, poderia demorar mais…), só queria que acabasse logo”, afirma a publicação.

 

Relato da jovem postado em uma rede social (Foto: Divulgação)
Relato da jovem postado em uma rede social (Foto: Divulgação)

 

 

Leia, na íntegra, o relato da mulher:

“A festa estava horrível, então meia hora antes da virada decidi ao menos “aproveitar” o open bar, assim fiz.

Era mais de meia noite, eu estava dançando com um amigo perto da entrada quando fui abordada por um dos seguranças, que me coagiu a sair da festa, eu realmente não entendi o motivo e mesmo alcoolizada só atendi por ser uma figura de autoridade do local. Havia uma área de terra onde alguns carros estavam estacionados entre o cerrado. Eu estava completamente vulnerável, com muito medo. Um dos carros estava estacionado de ré para o cerrado, então atrás do carro só havia vegetação. Ali ele me virou de costas e sem a menor cerimônia me estuprou. Eu fui estuprada por quem deveria assegurar minha segurança. Eu tive medo, não reagi (poderia ter sido pior se reagisse, eu poderia apanhar, poderia demorar mais…), só queria que acabasse logo.

Quando ele terminou mandou eu ficar lá, mais uma vez tive medo e não me movi. Ele voltou com outro segurança e disse: “Tá aí, cara, manda ver”. Não consigo descrever o que senti na hora. Ele saiu, eu fiquei com o outro segurança e perguntei porque ele iria fazer aquilo comigo também, acho que ele se assustou e disse que não ia fazer nada, respirei fundo e voltei pra festa num misto de pavor e dormência. Não contei nada pra ninguém. Me questionei se eu não tinha “pedido por aquilo”, olha que ridículo! É assim que somos ensinadas. A culpa sempre é atribuída à mulher. O dia amanheceu, fui pra casa com meu amigo, eu não conseguia ainda assimilar os fatos. Só pensei que não podia banhar, deitei e tentei dormir. Foi um sono inquieto, eu sentia dores internas, e comecei a lembrar de algumas frases que usamos na militância: “moça, a culpa não é sua”, “não ensine meninas a não serem estupradas, ensine meninos a não estuprarem”.

Decidi levantar e tirar o absorvente interno (sim, durante o estupro eu estava usando absorvente interno), acontece que eu não consegui. Fiquei mais de uma hora pensando no que fazer, entrei em contato com um grupo de apoio à vítimas de crimes sexuais ao qual faço parte, fui ouvida e mesmo assim… Eu estava desnorteada! Não queria contar pra ninguém, estava com vergonha, me sentindo suja, culpada… Quando num ímpeto saí do quarto e falei com o meu pai um seco: “pai, eu fui estuprada”. Temos quatro cachorros, ele estava lavando a área, parou na mesma hora, esperou minha mãe sair do banho, contou pra ela. Fomos imediatamente à Delegacia da Mulher, eu sequer comi. Saímos de casa por volta de 12h. Ficamos aproximadamente quatro horas na delegacia, foi uma situação extremamente constrangedora, tive que repetir a história várias vezes e reviver aquele momento. Fui encaminhada ao IML e ao hospital da Asa Sul pela delegacia.

O médico do IML não conseguiu tirar o absorvente interno, meu desespero só aumentava. Cheguei ao hospital e fui atendida por uma médica extremamente empática, finalmente me senti um pouco menos desconfortável, ela me tratou tão bem! Ela me consultou e tirou o absorvente, o que apesar de ter doído muito porque minha vagina está realmente bastante machucada, foi um alívio. Tomei uma Benzetacil em cada lado (sim, foram duas), remédio na veia, mais algumas doses únicas de remédio (via oral) e, o que me abalou muito: iniciei a tomar o coquetel para AIDS (são 28 dias tomando esses remédios fortíssimos, que causam enjoo, vômito e diarreia). Colhi sangue também. Cheguei em casa à noite, exausta, faminta… Até que minha irmã chegou e eu finalmente consegui chorar.

Eu sei que é muita exposição, mas, sinceramente?! Não é pior ao o que me aconteceu. Decidi redigir esta nota de repúdio por alguns motivos específicos: eu fiz tudo como orienta a lei, tudo certinho, e uau!!! Quanta burocracia! A delegacia, o IML e o hospital ficam completamente distantes um do outro, eu estava de carro, acompanhada, mas e a mulher que não tem nenhuma assistência como faz? Ela não faz, ela desiste. Porque se eu tivesse sozinha, juro que teria ido ao posto de saúde dizer que transei bêbada com absorvente interno, eu não teria forças pra passar por isso sozinha (e se não fosse o absorvente interno nem teria ido, correndo riscos de saúde); quantas outras mulheres não devem ter sofrido nas mãos desse imbecil e dessas empresas de segurança irresponsáveis que contratam qualquer um?! E o mais importante, eu não suporto imaginar que outra mulher pode passar pelo mesmo que eu passei e ficar calada, estou fazendo a minha parte pra evitar outras dores e outros sofrimentos.

P.S.: A nota está sujeita a edições para acréscimo de informações.
P.S. 2: Seguem algumas imagens, que comprovam o narrado, nos comentários.
P.S. 3: Tenho recebido muitas mensagens em apoio, estou lendo todas na medida do possível. Muito obrigada, de coração! Tenho recebido também solicitações de amizade, ativei a configuração “seguir” para que recebam atualizações sobre o caso. Tudo que fizer referência ao mesmo terá status público. Meus familiares e amigos estão sofrendo junto comigo, então não quero que eles sejam expostos. Mais, uma vez, muito obrigada!
P.S. 4: Aos que estão duvidando, me julgando… Só desejo que nunca aconteça nada semelhante nem à pessoa que vocês mais odeiam.”

 

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