Minha inesquecível aventura na China

Tudo começou naquela viagem a Hong Kong, pela revista carioca Manchete, em 1997, em companhia do fotógrafo Gervásio Baptista, ano em que a famosa ilha de arranha-céus ficou livre do domínio secular da Inglaterra, voltando a fazer parte da China continental, porém com a mesma ideologia democrática que sempre teve, herdada dos britânicos. À noite, depois de deixar Gervásio dormindo no hotel, a fim de atender meu vício de jogo de azar, dei uma escapada até um dos dois cassinos flutuantes, onde perdi uma sempre quantia chorada, desta vez em dólares.

Observado de perto por um jovem chinês que se identificou como jornalista, ele ouviu, surpreso, que eu era seu colega de profissão. E ficou espantado ao ouvir a mentirinha de que eu iria publicar que tinha sido roubado pelas roletas chinesas. Após ponderar que isso prejudicaria o conceito de honestidade comunista, implantada por Mao Tsé-Tung desde 1949, ele então me propôs que omitisse a “denúncia” em troca de uma visita à China, onde até, à época, nenhum repórter do lado ocidental tinha tido acesso.

Mas adiantou que somente nos levaria até a província de Cantão, que fica a 120 quilômetros de HK. Óbvio que aceitei, até porque valia como um “furo” internacional. No dia seguinte, pouco antes do meio-dia, atravessamos a fronteira de jipe. Meia hora depois, fomos apresentados ao governante de uma vila. Como já era hora do almoço, gentilmente ele nos perguntou qual a refeição de nossa preferência.

Sem vacilar, respondi que era Caranguejo, com a concordância do Gervásio. Chamado à nossa presença, o Chef da cozinha recebeu as ordens. Não demorou muito, retornou, acompanhado de um auxiliar, portando uma enorme bandeja com caranguejos, catados!

Fiz uma cara de decepção e os meus lábios traduziram a voz de meu coração: eu amo caranguejo, porém quebrando-o ao som musical do toc-toc, de preferência com um martelinho de plástico branco, igual ao do restaurante Nosso Mar, da 115 Norte. O anfitrião renovou a ordem ao serviçal.

Com certeza, à guisa de bronca sem palavras, o Chef demorou bastante tempo para trazer o segundo pedido, mas antes de sair, ele me fuzilou com um olhar atravessado, de fácil tradução:

– Filho da pxxx!

Como se fosse a faísca de um raio, esse xingamento me atingiu em cheio. E, até hoje, faz parte de meus frequentes e indesejáveis pesadelos!

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