Michelle, sua avó e você

Dona Maria Aparecida, 80 anos, foi diagnosticada com covid-19, e no dia 3 acabou transferida para a UTI do HRC. Foto: Divulgação

Tudo bem que dona Maria Aparecida Firmo Ferreira não seja nenhuma santa. Afinal, ninguém é obrigado a sê-lo. Ela, aliás, já foi acusada até de tráfico de drogas. Mas, quis o destino, tornou-se avó da primeira-dama do País. E que diferença isto fez na vida dela? Aparentemente, nenhuma.

No dia 1º de julho, dona Maria Aparecida deu entrada na emergência do Hospital Regional de Ceilândia, após ser encontrada caída numa rua do Sol Nascente, uma das maiores favelas da América Latina. Aos 80 anos, foi diagnosticada com covid-19, e no dia 3 acabou transferida para a UTI do HRC.

Na quinta-feira (30), a avó de Michelle Bolsonaro voltou a ser entubada, após os exames de sangue mostrarem agravamento de seu quadro infeccioso. Ela precisa de auxílio de ventilação mecânica para respirar. No mesmo dia, sua neta famosa anunciou que também está com o novo coronavírus.

Ao contrário de sua avó, porém, Michele Bolsonaro, 38 anos, faz o tratamento no Palácio da Alvorada, assistida por profissionais da Presidência da República. Segundo a Secretaria de Comunicação Social (Secom-PR), ela “apresenta bom estado de saúde e seguirá todos os protocolos estabelecidos”.

Já o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (Iges-DF), que administra o HRC, na periferia de Brasília, informa que dona Maria Aparecida “está recebendo toda a assistência necessária ao quadro de saúde”.

Viva a ema! – E o que essa história tem a ver com os brasileiros que ainda sobrevivem à pandemia? Resume-se a uma palavra: empatia.

Ora!, se uma família não se preocupa com a vovozinha de 80 anos – mesmo tendo ela um passado não muito recomendável –, vai esquentar a cachola com 200 milhões de ilustres desconhecidos? Terá esta família – incluindo a neta e seu digníssimo esposo – a capacidade de se colocar no lugar dos milhares de doentes ou das famílias enlutadas Brasil afora?

Jair Bolsonaro revelou no dia 7 de julho que testara positivo para a covid-19. Dezoito dias depois anunciou que estava curado. A experiência, aparentemente, não mudou sua opinião a respeito da pandemia, que sempre negou. Pelo menos em público, permaneceu recomendando a cloroquina para tratar a doença. Chegou a oferecer o remédio para uma ema no jardim do Alvorada, que retribuiu com uma bicada (esta ema nos representa!).

O segredo da mente

Bolsonaro e seu clã não enxergam pessoas; contabilizam votos. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Em artigo na Folha de S.Paulo, o sociólogo e doutor pela Universidade de Oxford (Inglaterra), baseado em tese do cientista político Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), tenta desvendar o segredo da mente dos Bolsonaro.

O Presidente da República e seu clã não enxergam pessoas; contabilizam votos. Não importa se é o seu, o meu ou o da vovozinha. Estamos todos contabilizados e precificados. Para se reeleger em 2022 – seu único grande objetivo – ele precisa que os sobreviventes da pandemia não sintam empatia pelas vítimas.

A conta – conforme os dois especialistas – é a seguinte: o Brasil deve chegar a 100 mil mortos na pandemia nos próximos dias (duas vezes o número de brasileiros mortos na Guerra do Paraguai). Mas Bolsonaro aposta que genocídio não custa voto.

Se 1 milhão de pessoas morrerem, e os dez parentes e amigos mais próximos delas se revoltarem contra o presidente-candidato, não será suficiente para colocar um concorrente no segundo turno. Christian Lynch observa: os que morreram não vão votar.

Portanto, caso você adoeça e morra, Bolsonaro perderá o seu voto, mas nenhum adversário dele o terá. Ou seja, Bolsonaro já precificou a sua morte, e conta que ainda dá para ganhar eleição sem os votos de sua viúva e de seus órfãos e até de seus amigos mais chegados.

Mentira – Mas, para isso, é preciso que os sobreviventes não sintam qualquer empatia com as vítimas. E Bolsonaro mente para o público ao afirmar que os que morreram já eram velhos, doentes, já iam morrer mesmo. Além disso, se convencer o público de que só os que morreram corriam riscos, é menos provável que as pessoas façam a pergunta fundamental da empatia: “E se fosse eu?”.

Malandro é malandro…

Para dar sequência ao seu plano, Bolsonaro tenta manter seus seguidores fiéis “protegidos” da ciência e da imprensa profissional, que descobriram a verdade, que não serão iludidos pelo que diz a “mídia esquerdista” ou os “cientistas comprados pela China”.

Afinal, não tem estelionato que dê certo se o malandro não conseguir que o otário sinta que quem está sendo malandro é ele. Na Argentina, onde fizeram o isolamento, morreram em todos esses meses menos do que morrem no Brasil em três dias de pandemia. Na Nova Zelândia, não há mais casos de Covid-19, e a vida voltou ao normal.

Enquanto isso, no Brasil o governo Bolsonaro só gastou 11% dos recursos destinados a combater a epidemia (governos estaduais receberam 39% do prometido, municípios receberam 36%).

Sem a comparação com outros países, é mais difícil ter noção de que o longo platô de mortos —um número estável e alto de mortos por dia durante meses— vai atrasar mais a recuperação econômica do que qualquer quarentena que Bolsonaro não tivesse sabotado.

Ninguém no mundo resolveu a economia antes de resolver a pandemia. Nós não resolvemos a pandemia. Mas ainda é cedo para dizer se matar 100 mil pessoas custa votos no Brasil. Nos Estados Unidos, a reeleição de Donald Trump parece seriamente ameaçada. Aqui, o clima anda mais para acordão.

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