Meu encontro com Gary Cooper

O frio cortava fino que nem navalha, insensibilizando meu nariz e orelhas, como se ambos fossem apenas protuberâncias de gelo. Era a primeira nevada daquele final de ano em Nova Iorque. Caminhando sobre e sob a neve, protegido apenas por uma capa de nylon carioca, mesmo assim eu me sentia em paz com o mundo. E isto simplesmente porque no dia seguinte estaria viajando de volta ao calor amigo do Galeão, onde embarquei com uma mochila nas costas, para viver a aventura de alguns meses, numa cidade que não dorme nunca.

A neve salpicava o meu rosto, enquanto apressava os passos no percurso entre o barzinho do Greenwich Village e a estação do metrô. Quando me preparava para pisar o primeiro degrau sob aquele lampião redondo, alguém segurou o meu braço, levemente:

– O senhor pode me arranjar três dólares?

Olhei de baixo para cima, já que o dono da voz tinha quase dois metros de altura. Ele usava um casaco de xadrez roto, os cabelos grisalhos em desalinho. Não, com certeza não se tratava de um malfeitor, porque seus olhos eram daquele azul claro, próprio dos santos. Com aquele jeitão encabulado, lembrava Gary Cooper em papel de mendigo.

– Não estou pedindo dinheiro para beber. Preciso dos três dólares para alugar uma cama!

Fiquei envergonhado por ele pensar que eu estava duvidando de sua palavra. Aí a minha mão entrou no bolso, tirou três dos únicos nove dólares e deu ao homem de olhos claros. E minhas pernas desceram correndo os degraus do metrô, para não ouvir o humilhante “muito obrigado” de um rei-mendigo. Os seis dólares restantes eram suficientes para saborear o quebra-jejum à americana e ainda sobrariam alguns cents.

De repente, alguma coisa quente, reconfortante, explodiu dentro de mim, fazendo-me sorrir ao cruzar a roleta da plataforma do trem que me levaria ao meu hotelzinho da Rua 42, quase esquina da Broadway. Eu era rico, muito rico. E estava feliz, muito feliz. Principalmente por ter salvo Gary Cooper de morrer congelado, naquela inesquecível noite em que Nova Iorque virou sorvete de neve.

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